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AS ENCARNAÇÕES DE ZÉ DO CAIXÃO NAS HQS


Não consigo me lembrar de um personagem tão icônico no gênero de terror/horror no Brasil que não seja, ele mesmo, o coveiro Josefel Zanatas, ou simplesmente Zé do Caixão, que assombra os brasileiros desde 1964, quando surgiu pela primeira vez no filme “À meia-noite levarei sua alma”. Aliás, vale lembrar que o personagem sempre foi mais admirado e respeitado no exterior, o Coffin Joe, como é conhecido lá, fora já ganhou exposições, livros e até uma minissérie chamada Zé do Caixão, que traz Matheus Nachtergaele no papel do deus (ou demônio) do terror brasileiro. E claro, a criação máxima do cineasta José Mojica Marins também fez um imenso sucesso nos quadrinhos nos anos de 1960, em uma série mensal escrita pelo escritor R. F. Lucchetti e desenhada pelos artistas Nico Rosso e Rodolfo Zalla. Essa fase, em especial, estabeleceu a base para a decorrente consolidação do personagem no imaginário coletivo brasileiro. Entretanto, a versão do coveiro niilista teve outras reencarnações, sob o traço de outros quadrinistas, que deixaram sua marca na mitologia do personagem.

Em 2000, uma versão para o público infantil foi produzida a fim de explorar mais um nicho para o personagem e, assim, nasceu a revista “A Estranha Turma do Zé do Caixão” da editora Brainstore, que tinha na equipe de criação Alexandre Montandom e Alexandre Dias. O resultado foi algo como “Turma da Mônica conhece Família Adams”.

Laudo Ferreira, em ocasiões diferentes, produziu histórias que posteriormente foram reunidas no álbum “Zé do Caixão” (2016), edição publicada pelo selo Jupati, da editora Marsupial; por sinal, tem valor histórico, pois reúne as adaptações, para as HQs, de dois longas-metragens estrelados pelo personagem maldito. O álbum traz a adaptação do filme “À meia-noite levarei sua alma”, além da versão integral inédita da trama “Esta noite encarnarei no teu cadáver”. A HQ foi criada a partir do roteiro original do filme, e foi republicada após vinte longos anos. Ambas surgiram a partir de um interesse do quadrinista em resgatar a versão em quadrinhos do Zé do Caixão, na virada dos anos de 1980/1990, e por coincidência, o próprio Mojica estava à procura de alguém para levar seu Zé do Caixão para os quadrinhos. Ao lado de Omar Viñole (arte-final), o quadrinista escreveu e desenhou a adaptação dos dois longas. Como bônus, ainda traz um relato do próprio artista sobre os bastidores de produção das obras, além de um texto seminal do diretor de fotografia Virgílio Roveda, o “Gaúcho”, sobre o saudoso José Mojica Marins.



Já no álbum “Prontuário 666: Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão” (2008, ed. Conrad), HQ de Samuel Casal e Adriana Brunstein, traz em sua trama uma espécie de prelúdio do derradeiro filme, “Encarnação do Demônio” (2008), que expõe os acontecimentos nas quatro décadas na prisão após o desfecho do filme “Esta noite encarnarei no teu cadáver”, de 1968. A estética “expressionista”, cheia de alto contraste e personagens/cenários angulosos, lembra um pesadelo e/ou representação distorcida da mente perturbada do personagem título, sendo um espetáculo à parte.

Em 2017, o personagem Zé do Caixão aparece numa história por Laudo Ferreira, escrita pelo próprio José Mojica Marins, na edição n.66 de revista em quadrinhos “Mestres do Terror”, da editora Cultura & Quadrinhos, projeto capitaneado pelo colecionador Daniel Saks, com o retorno das revistas de horror da editora D-Arte, de Rodolfo Zalla. A história apareceu originalmente em 2014, na revista gaúcha “Monstros dos Fanzines” n.3.

Creio que, nos quadrinhos, ele possa ter conseguido sua "atuação" ainda mais assustadora, e sem dúvida alguma influenciou (e ainda influencia) uma geração de novos autores, ávidos em criar bons sustos nos leitores mais sensíveis e trazer discussões tão caras à nossa sociedade cheia de mazelas, tão tenebrosa quanto o terror ficcional.

E viva José Mojica Marins!

P.S: José Mojica Marins (13 de março de 1936 -19 de fevereiro de 2020).




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