• Pedro Andrade

Uma gota de sangue


Estamos de volta, caros predadores! Passado o dia das bruxas, as bruxas continuam pelos dias. Poucos conhecem a origem desta festa como a tratada no artigo De onde veio o Halloween? A história do feriado mais assustador do ano! do Marcos Tadeu. Lá ele nos aponta a simbologia da morte presente na comemoração.

Isto tem tudo a ver com nossa pequena discussão de hoje, pois veremos como no conto “Uma gota de sangue”, de Bráulio Tavares, a morte é representada através das insinuações sexuais.

Predadores, muitos spoilers virão com a barca do pirata que vos fala.

Para quem não conhece, Bráulio Tavares é um escritor paraibano, e conto sobre o qual tratamos aqui é o último da coletânea 7 Monstros brasileiros, na qual o autor vai ao folclore nacional para trazer novas e ainda mais macabras leituras desses mitos.



“Uma gota de sangue” demonstra de maneira bruta e sem floreios como a morte intercepta a vida. Nessa brincadeira lança o leitor a uma profunda reflexão do quão vã e ordinária pode ser uma vida e ainda como tão diminutos podem ser seus problemas.

O protagonista da nossa história é Givaldo Nunes, um engenheiro, responsável pela construção do Tropical Hotel BlackRiver, um luxuoso hotel no seio da Floresta Amazônica.

Às vésperas da inauguração do resort, os problemas se avolumam, a construção ainda não está completamente pronta. Givaldo é tomado por certo ódio pela imensidão da floresta e pelos problemas que esta traz à dinâmica de construção. Este conflito entre floresta e progresso perpassará toda a trama.

No dia seguinte, ilustres convidados chegarão para a festa de inauguração e Givaldo chega à beira do desespero ao pensar nas dificuldades e no fracasso que pode ser a celebração.

Enquanto tenta se desligar dos problemas, o protagonista conversa, ao telefone, com sua amante e em seguida com sua esposa. O autor, com essa estratégia, prende a atenção do leitor em uma possível trama ou na previsão de um conflito, uma vez que ambas, esposa e amante, estarão na festa no dia seguinte. Com isso também traz, às dimensões significativas do texto, a temática das relações sexuais.

Alguns instantes depois, Givaldo encontra, na piscina do hotel, uma figura feminina, uma mulher que, nua, lança-se à piscina em uma exibição de formas de singular beleza. Na sequência, aproxima-se do homem. Neste momento, há no texto uma tensão sexual crescente, até que a, estranha e linda, mulher sofre uma metamorfose: sua boca estende-se em um formato de focinho, lembrando o de um tamanduá. Com sua tromba, rompe os ossos do crânio do protagonista e devora seu cérebro.

Givaldo está morto, sem qualquer gota de sangue. Todos os problemas que ocupavam sua existência foram apagados. Não haverá embate entre esposa e amante. Sua vida não passará de uma mera lembrança de seus poucos conhecidos.

O conflito floresta/homem fora resolvido por este ser mítico, uma espécie de bruxa, que traz consigo a morte intrinsecamente ligada à expressão da sexualidade.

É inevitável ainda relembrar o caráter erótico do ato canibal das figuras vampíricas representada aqui pelo mito amazônico do Capebolo, que, segundo Câmara Cascudo, “num abraço mortal [...] vara-lhe o crânio e, pondo a tromba, suga toda a massa encefálica”. Já para Karla Menezes Lopes Niels, a troca de fluídos, neste caso o sangue, representaria a própria relação sexual, como nos contos góticos de vampiros.

Chamo atenção para como Bráulio Tavares explora esta tensão semântica entre sexo e morte como uma crítica social à exploração dos bens da floresta, principalmente o bem humano. O hotel, em sua lógica de lucro, explora e rebaixa os recursos e habitantes locais, as indígenas têm sua imagem sexualizada, os trabalhadores têm suas competências reduzidas, tudo isso frente à mentalidade progressista representada pelo protagonista, nem um pouco romantizado, Givaldo.

Felizmente, no conto, diferente da vida, há um Capebolo para restituir a ordem selvagem à floresta.

Recomendado: SIM!

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Nos revemos em breve.




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