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Baseado em histórias reais — a indústria do True Crime


True crime, grosseiramente traduzido como “crime real”, é um ramo de entretenimento destinado a explorar e narrar histórias violentas, quase sempre envolvendo homicídios. Tem como marco o lançamento do livro “A sangue frio”, do escritor norte-americano Truman Capote. Nele, Capote mistura ficção e realidade para reconstruir o assassinato violento de uma família, utilizando para isso relatórios de polícia, entrevistas e notícias da época e, o mais importante, os personagens reais: vítimas e assassinos. O lançamento de “A sangue frio”, de certo modo, inaugurou um nicho lucrativo em voga ainda hoje.

São inúmeras as publicações e biografias dedicadas a crimes reais. Sem dúvida, seu carro chefe são os assassinos em série. Mas por quê? Por que gastamos tempo, dinheiro e estômago para ler sobre horrores reais? O que ganhamos ao nos deter na dor dos outros?

Longe de glamurizar os crimes perpetrados por estas pessoas, gostaria de me deter não nos homicidas, investigadores, testemunhas e vítimas, mas em nós — o público. Digo “nós”, pois não posso deixar de me incluir entre as milhares de pessoas que leem ou já leram esse tipo de conteúdo. Não farei juízo de valores, assim como não fornecerei um álibi para esse interesse. Minha ambição é outra. Levantar uma reflexão sobre a “parte obscura de nós mesmos”

Todos compartilhamos dela, assim como aprendemos a lidar com ela, a fim de fazer parte da sociedade. Pacto social, certo? Mas o que acontece quando alguém rompe esse pacto de forma ultrajante? Quando a violência explode nas manchetes de jornal e descobrimos que o responsável pela morte de pelo menos dez mulheres é um homem de meia-idade, casado, com dois filhos, funcionário exemplar, vizinho respeitoso. Que ele não só as matou, como também as amarrou e torturou. Primeiro o choque, em maior ou menor grau, e depois o susto vêm não do ato, mas do ator. “Ele era normal / solicito/gentil” são frases ditas com frequência por pessoas próximas ao assassino em série. Adianto que não, ele não era e nunca foi. Na verdade, ele mantinha uma ótima fachada e foi isso que o possibilitou passar tanto tempo impune.

Parte da nossa atração por tais narrativas se encontra nesse ponto. O que me difere dele? Pois, convenhamos, todos já tivemos aquele desejo de matar o chefe, um amigo e até mesmo um companheiro. Não levamos, em grande parte dos casos, essa vontade a cabo (assim espero). Porém alguns indivíduos o fazem e mais de uma vez. Isso causa um misto de sentimentos: repulsa, medo, ódio e fascínio. Esse fascínio tem origem em ver que alguém realizou nossos piores pesadelos.

A leitura é uma importante ferramenta na elaboração de pensamentos e afetos. Estudos indicam que leitores de terror/ horror tendem a lidar melhor com situações estressantes e de crise, possivelmente porque treinamos nosso sistema límbico a sentir medo em um ambiente protegido. Isso nos dá a capacidade de, mesmo com pavor, pensar racionalmente e tomar decisões rápidas.

Ler sobre assassinos em série nos faz entender que eles existem, identificar situações de possível perigo e, também, por mais difícil que seja de admitir, prazer. Consumir conteúdos violentos dá a nós uma espécie de catarse, uma pequena satisfação para a “parte obscura de nós mesmos”. Assim a saciamos, sem, de fato, cometer homicídio, mas obtendo da leitura essas emoções.

Por fim, deixo uma pequena reflexão ética que rege minhas aquisições nesse ramo editorial. Sempre busco informações antes de adquirir qualquer título, sendo três as principais. A primeira é: o criminoso lucra com a venda desses livros? A maioria dos estados norte-americanos proíbe que um condenado obtenha ganhos materiais com qualquer objeto vinculado a seu crime. Aqui no Brasil, caso a história seja notória e tenha espaço na mídia, não é necessário pagar qualquer coisa ao condenado. Caso o material contenha entrevistas, isso pode ser um indicativo de que ele foi pago. É possível, graças à internet, pesquisar se houve esse tipo de transação. Segundo: os familiares das vítimas endossam a publicação e a forma como elas foram retratadas. Novamente, com cerca de cinco minutos em um site de busca é possível ter essa confirmação. Por último: como o autor constrói sua narrativa. Pela sinopse você já terá um ideia. Ele é sério ou sensacionalista? Seu interesse é em lucrar ou contar respeitosamente a história de uma tragédia.

Encerro essa coluna parafraseando uma citação do King, uma das minha favoritas:

“Não lemos contos de fadas para as crianças, para que elas acreditem em príncipes e princesas. Mas para que saibam da existência de monstros.”



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