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Terror como agente de saúde mental


Esta coluna veio contradizer o que a maioria das mães vem dizendo desde o início dos tempos. Diferente do que nossos pais advertiram ao longo da nossa infância. Assistir, e principalmente ler, histórias de terror faz bem para crianças — adultos também. Podem dar pesadelos, isso é indiscutível, mas há diversos benefícios em ser exposto a monstros, a assassinos e ao medo, mesmo em tenra idade.

Quando vemos um filme de terror, experimentamos o que pesquisadores chamam de “medo simulado”. Isso significa responder a uma ameaça em ambiente seguro. Essa resposta acontece em dois níveis: emocionalmente, através de sentimentos de ansiedade, temor, incômodo entre outros; e fisicamente quando, em nossos corpos, ocorre descarga de adrenalina, pupilas dilatadas, aumento de frequência cardíaca etc. Se substituirmos o audiovisual pelo livro podemos obter a mesma resposta, em alguns casos até intensificada, pois nossa mente vai criar formas e características nos vilões sob medida. Nas vírgulas acabamos imprimindo detalhes de terror personalizados. Nosso inconsciente não vai deixar passar uma chance de emergir e nos apavorar.

Mas, Julia, por que é bom amedrontar criancinhas? Eu sei, parece estranho, porém há vantagens.



Retornando ao “medo simulado”, quando vivenciamos situações de estresse e desconforto emocional repetidamente em ambientes seguros, treinamos nossa psique. Um exemplo menos macabro seria a academia. Se você corre com frequência em uma esteira, ensinando seu corpo a manter um certo ritmo por quilômetros, provavelmente conseguira fazê-lo em uma maratona. Seu cérebro funciona assim. De certa forma, você não se tornará resistente ao medo, mas será capaz de manter um pensamento racional e ao se deparar com uma situação ameaçadora. Além disso, terá à sua disposição centenas de histórias, nas quais os personagens tomaram decisões erradas e acertadas, possibilitando a você um leque de escolhas melhores, baseadas em vivências anteriores de outros.

O terror faz parte do fantástico, nada de novo nessa afirmação, só a fiz para apontar uma segunda vantagem. Como parte integrante desse tipo de narrativa, ao lê-la a criança, exercita sua própria imaginação e criatividade. Se você passar tempo suficiente entre histórias nas quais o insólito está presente, ganha a habilidade de enxergá-lo e até criar sua própria brecha na realidade. Conforme amadurecemos, ganhamos a aptidão de separar cada vez mais radicalmente a realidade da mágica. O leitor que tem preferência pelo fantástico, saberá essa diferença, contudo, conservará a habilidade de acessar essa outra dimensão. Isso parece bobagem, porém há pesquisadores que apostam justamente nela para explicar a evolução da humanidade. Nossas capacidades, tanto imaginativa quanto criadora, não estariam presentes se não fossem alimentadas pela possibilidade da ruptura com o real.

Todo monstro é a personificação de um temor humano, seja em sua coletividade, como o medo existente em uma cultura/período histórico, seja mais próximo a nós, como uma fobia pessoal. Como mencionado neste texto, dada a chance, nosso inconsciente irá se manifestar e com isso trazer elementos de nossos temores íntimos para as narrativas. Podemos até não enxergá-las claramente, mas elas estão sempre e repetidamente lá. Assim temos como ganho a possibilidade de elaborar nossos maiores pavores de forma segura e eficiente. Eficiente porque estamos em uma dialética inconsciente, isso significa que o medo está sendo elaborado na nossa parte mais íntima, a qual não costuma ouvir nossa razão.

Como diria Lovecraft, o medo é a emoção mais antiga da humanidade. Antes das adaptações dos contos de fada pelos irmãos Grimm, o que tínhamos eram histórias carregadas de terror, como forma de avisar aos pequenos sobre os perigos do mundo e costumes sociais a serem preservados. Essa lógica foi sendo subvertida através dos tempos, e ficamos atualmente com a advertência de que crianças não deveriam ter acesso a conteúdo nos quais a morte, a maldade, o medo e o perigo estejam presentes. Possivelmente essa carga proibitiva dos adultos seja o que desperte tanto interesse em jovens pelo terror. E isso pode ser uma ferramenta imprescindível para a formação de novos leitores. Como indicam pesquisas no âmbito nacional, a implementação nos currículos escolares da leitura livros de terror — inclusive clássicos como Poe — levou a um aumento na procura de livros por adolescentes.

As histórias de terror contém criaturas horríveis, mas não são elas os monstros. A mais temível das assombrações é a ignorância que leva ao preconceito. Por isso, espero que as crianças possam ler terrores e horrores. E caso venham a ter pesadelos, isso facilmente é contornado. Basta um adulto lhes dizer que ter medo é normal, que estão protegidas. Dessa forma, a experiência é de ser cuidado e, com sorte, teremos um adulto ávido leitor, seguro de si e capaz de uma enorme resiliência frente ao maior do horrores: o mundo real.




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