• Diário Macabro

Se organizar direitinho...


No post passado, conversamos sobre a coerência, aquela que torna o texto verossímil, lógico e harmônico. Bom, para que isso aconteça de fato, a coerência precisa da ajuda de sua amiga inseparável, prima-irmã na construção textual: a coesão.

A coesão tem a ver com a organização, e está presente em tudo, não só no texto. Imagine uma apresentação coletiva de dança. Se um dos membros do corpo de baile parece estar fora do tempo, ou executando movimentos de maneira descompassada, logo pensamos “hm, esse grupo não tá com muita coesão”. Agora, vamos transpor isso para o discurso. A coesão contribui para que a lógica, a harmonia e a mensagem sejam sustentadas.

A sustentação de que falei é feita por estratégias estruturais, diferente da coerência — às vezes difícil de mapear com mais objetividade. Podemos dividir essas estratégias em alguns tipos:

  • Coesão referencial é aquela que faz com que evitemos repetições desnecessárias no texto. Uma vez que usamos a referência, podemos retomá-la por conjunções, pronomes, o que nos leva à coesão por substituição. Esse tipo de coesão usa a retomada de um termo ou expressão já mencionado para dar continuidade ao texto, puxando o texto um pouco para trás, para que ele, logo em seguida, tenha condições de seguir adiante sem complicações.


  • Uma outra forma de evitar a repetição se dá pelo uso das elipses — ou seja, suprimir algum termo que, naquele momento, não precise ser explicitado uma vez mais. Para isso ocorrer, é preciso fazer o bom uso da pontuação, dos advérbios e do paralelismo.


  • As conjunções são o “braço direito” da coesão, já que são elas que fazem a mecânica das frases acontecer, evitando ruído, repetições, garantindo, também, a percepção de encandeamento temporal e espacial do discurso apresentado. Não desvalorizem o uso precioso de enquanto, como, contudo, no entanto...


  • Por último, e não menos importante, a coesão lexical, que, pensando friamente, não deixa de usar o recurso da substituição, mas é uma modalização ou extrapolação da ideia contida em um ou mais termos, que se autorreferenciam. Exemplo: Carlos Drummond de Andrade é um dos maiores e mais prolíficos autores brasileiros. O mineiro tem como sua obra mais conhecida “A Rosa do povo”. Um detalhe importante: quando lançamos mão dessa estratégia, precisamos pensar para que público ela se dirige e em que época o texto é escrito, pois, de certa forma, caso a referência não pareça clara, perde-se o sentido.




Peço desculpas se o post de hoje pareceu um pouco didático, mas seria impossível falar de como construir a coesão sem discriminar como podemos estruturá-la.

Notem, mais uma vez, como a questão da referência permanece importante para tornar o texto crível, confiável e claro. A concretização do discurso é feita, necessariamente, por meio de referências, diretas ou não.


Então, se organizar direitinho, todo mundo escreve!


Não posso deixar de mencionar algumas obras que tratam de coerência e coesão textual:

A coesão textual, da Ingedore, Villaça Koch; A coerência textual, da Koch, com Luiz Carlos Travaglia; Coesão e coerência textuais, da Leonor Lopes Fávero; e um mais geral, mas que inevitavelmente trata desses assuntos: Comunicação em prosa moderna, Othon Moacir Garcia.


Até o nosso próximo encontro!



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