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Quem tem medo do escuro? A literatura e a experiência


Aproveitando o mês do Halloween, hoje vamos tratar sobre experiência e escrita, e como utilizar os gatilhos reais para escrever ficção.

Em meados de 2014, eu tive uma crise de gastrite muito forte e basicamente sentia o ímpeto de vomitar em todas as refeições. Depois de uma consulta, recebi a indicação para fazer uma endoscopia a fim de diagnosticar o meu quadro. Aquela foi a primeira vez que eu fiz um procedimento tão invasivo e eu não sabia absolutamente nada sobre como funcionava uma endoscopia. O procedimento consiste na introdução de um tubo flexível (endoscópio) com uma câmera responsável por capturar imagens do sistema digestivo.

Entrando na sala pra me preparar, a primeira coisa que a enfermeira disse foi que eu não deveria ter ido ao exame vestindo uma saia. No primeiro momento não entendi o porquê, então ela me deu uma espécie de calça/ avental e depois disso amarrou um pano nas pernas. Quando o médico responsável pelo procedimento entrou na sala, eu entendi o risco que a preocupava.

Durante o procedimento, meu corpo teve certa resistência a qualquer tipo de anestesia, eu acordei com o tubo na minha garganta, entrando em desespero por não conseguir respirar direito e/ou falar. Lembro do quão assustadora havia sido a sensação gelada na garganta, aquele objeto estranho ocupando todo o espaço na minha boca. O médico apenas me deu mais anestesia e então eu adormeci novamente.

Anos se passaram, então eu vi o edital da Editora Diário Macabro para a edição n.4 e decidi usar essa experiência como gatilho. "Fique quieta, por favor" é um conto sobre Mariana, uma estudante de medicina submetida a uma endoscopia.

Não sou Mariana e nunca cursei medicina. Fiz um pouco de pesquisa (sempre, sempre necessário) para basear a minha personagem como residente, e como eu poderia relacionar a temática dos medicamentos e a atuação na área da saúde. Contudo, o gatilho da escrita, o fio condutor da trama, advém daquelas sensações, da imagem fixada na memória de tudo que poderia ter acontecido comigo em estado de letargia induzida. O conto não existiria sem a experiência anterior.

Quando ouço alguém questionar a própria história ou o interesse de trama, pois "há muitas histórias publicadas sobre isso", eu sempre me recordo de todas as experiências reinventada que se desdobraram em contos. As vivências atravessam os textos e têm a capacidade de tornar uma história verossímil (vide post Úrsula) e única.

Há inúmeras histórias que tratam sobre as temáticas sobre as quais abordei naquele conto. Mas é inegável que Mariana e sua trama só poderiam ter sido escritas por mim, porque eu vivenciei a endoscopia, e eu uni outros elementos que não faziam parte da minha vida empírica, remodelando-os a partir da criação.

A literatura nos permite ficcionalizar tudo que está ao nosso redor. No meu processo de escrita 3D (baseado em dores, desejos e decepções), utilizo a criação para ressignificar o mundo à minha volta. E não necessariamente isso será feito com "as lembranças mais marcantes" ou "os eventos mais sofridos" porque parte da criação é ouvir. Ouvir a memória que resgata e apreende a centelha de algo cotidiano, podendo ser outra coisa totalmente diferente do que de fato aconteceu, e ouvir o outro — quantos causos, depoimentos, cenas e ambientações podem partir do infinito universo de potenciais ficções que o cercam?

Você tinha algum desejo na infância? Qual foi a maior decepção na vida de sua avó? Como a sua família lida com a dor? Como agem os seus desafetos (eles podem dar belíssimos personagens!)? Escute uma conversa dentro do ônibus, observe no seu trajeto diário aquilo que se aglutinou ao cotidiano e você normalmente não presta atenção. Ouça, observe. Há milhões de histórias a serem contadas, mas nenhuma delas será igual à que pode ser escrita por você.



Deixe a experiência do sombrio, a reação ao estranho e o anseio do ermo invadir sua narrativa.

De uma escritora de horror que morre de medo do escuro, desejo a vocês um macabro Halloween!



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