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Os maiores traidores! –- Artistas que apunhalaram os fãs pelas costas?


É inegável que as relações entre fãs e artistas mudaram consideravelmente nos últimos tempos, mas a pressão do público que consome sobre aqueles que criam sempre existiu — é preciso lembrar que mesmo um artista, de alguma forma, faz parte do público de outro artista, de quaisquer tipos de mídia. E é possível perceber que as redes sociais ampliaram em muito essa interação, seja para o bem, seja para o mal (uma análise profunda sobre o impacto disso na escrita pode ser lida na coluna do meu amigo Charlitto Ogami).

Tendo isso como base, resgato uma afirmação que é repetida com certa frequência: “tal artista se vendeu”, numa espécie de justificativa para atacar ou desmerecer aquilo que nos é oferecido, como arte ou entretenimento, e não nos agrada. Claro, acima de tudo, nenhum fã ou admirador é obrigado a consumir tudo que um artista oferece, mas muitas vezes as críticas são infundadas e a própria obra é mal interpretada, além de ser analisada sob aspectos que não deveriam ter tanto peso em detrimento de outros que acabam sendo esquecidos.

A maior banda de heavy metal do mundo, o Metallica, por muitas vezes foi alvo de críticas por parte de fãs. Numa longa entrevista sobre os 30 anos do clássico de 1988, “...And Justice for All”, concedida ao jornalista David Frickle, o vocalista James Hetfield revela ter sido “‘confrontado”’ por um fã quando o primeiro videoclipe da banda foi ao ar na MTV. Segundo ele, o jovem o abordou na rua, cuspiu e reclamou “Vocês se venderam, vocês fizeram um videoclipe!” — em referência ao clipe de One. “Sim, nós fizemos! Vá se f*der”, respondeu Hetfield, ao perceber que a mudança, seja com videoclipes, internet ou o que quer que fosse, era a única forma de crescer, e experimentar visões novas e ter sua mensagem atingindo mais gente. É um fato que a canção foi a primeira da banda a atingir o top 40 da Billboard Hot 100, ficando em 35º lugar na parada americana.

Mas as mudanças que o Metallica traria nos anos seguintes seriam ainda mais significativas do que até então. Na mesma entrevista, Hetfield ainda revela que a banda como um todo refletiu sobre os caminhos a serem seguidos após o “‘Justice”’. “Nós eéramos alimentados por muito ódio e muito medo de não sermos bons o suficiente. Essas duas coisas combinadas nos levaram até onde deveríamos estar em ‘...And Justice for All’”. O entendimento da necessidade de mudança veio quando os músicos perceberam que “sempre vai ter alguém tocando mais rápido e mais pesado que você”, então outros caminhos foram explorados.

E arte é por si só mudança. Quando alguém consome um material artístico, sua percepção está aberta para as mudanças de humor que o conteúdo pode causar, sejam essas para o bem ou para o mal.

Em uma entrevista para o The Current, Josh Homme, frontman do Queens of the Stone Age, afirmou: “Parte de mim acredita que toda vez que lançamos um disco novo, podemos perder 20% do público. Essas pessoas podem dizer ‘Eles mudaram! Cadê a banda que eu gostava?’, é algo que podemos presumir”. Homme continua “Eu disse isso para o [Mark] Ronson — produtor do disco Villains (2017) — ‘Se 15% do público não te odeia, você é um saco’, e ele respondeu ‘Estou tentando chegar em 40%’”.

A banda brasileira Sepultura, uma das maiores do mundo no estilo, também passou por períodos de críticas, sejam elas por trocas de integrantes ou pela exploração de novos estilos, instrumentos e climas. O fato é que, não dá pra evoluir e não dá pra melhorar sem enfrentar o lugar comum. No documentário “Sepultura Endurance”, disponível na Netflix, Andreas Kisser afirma: “Todo mundo mencionou a minha entrada na banda, que mudou a banda.? Todo mundo que entrou nessa banda mudou a banda. E é isso que tem que ser, a gente sempre respeitou uma característica nova”. E o guitarrista continua: “Mesmo quando tava aquela formação, nós vamos fazer o Roots — disco icônico da banda lançado em 1996 —, nós vamos fazer Kaiowas acústica e tudo, nunca tivemos medo de fazer isso. E até hoje é o que mantém essa banda viva, essa falta de medo”.





Para encerrar, trago as palavras do grande escritor, roteirista e mago Alan Moore, que no documentário “The Mindscape of Alan Moore”, afirma que “Não é trabalho dos artistas dar ao público o que público quer. Se o público soubesse o que necessita, eles não seriam o público, eles seriam os artistas. É o trabalho do artista dar ao público o que o público necessita.”

Ou seja, tanto na música quanto em qualquer outra forma de arte, a mudança é mais do que necessária, e cabe inteiramente ao artista definir a direção e a velocidade de seu movimento,. dDe modo que as obras, e suas respectivas mensagens, são maiores que rótulos e movimentos temporais.


Referências citadas no texto:


Metallica: ...And Justice for All Interview with David Frickle no Youtube




Entrevista com Josh Homme no The Current

https://www.thecurrent.org/feature/2017/12/01/josh-homme-of-queens-of-the-stone-age-make-the-world-you-want-to-live-in-interview


Documentário Sepultura Endurance na Netflix

https://www.netflix.com/title/81016522?s=i&trkid=13747225&t=wha


Documentário The Mindscape of Alan Moore no YouTube





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