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OS ALICERCES DE UM MUNDO FANTÁSTICO


Para podermos entrar de cabeça em um mundo ficcional, afundar na arte até sufocar, nós precisamos ser convencidos de que aquele mundo é real, de que os personagens, habitantes daquelas terras, são verdadeiros. Um autor pode dizer que a Terra é plana e, ao contrário do mundo real, eu posso aceitar isso, desde que eu saiba as regras deste mundo estranho. Precisamos sentir que cada pedra no solo faz parte dessa Terra plana, a grama, que o mundo vaza para o espaço sideral pelas suas bordas ou que se recicla debaixo do solo ao colidir com a parede do domo. Mundos precisam de regras, como as desse em que vivemos.

Em nossa Terra redonda, nós temos gravidade, movimento de rotação e translação, polos magnéticos, e trocentas coisas mais. Tire um elemento disso e você tem um mundo novo, pois tudo reverbera para se criar um “possível” ecossistema. Ou adicione um novo elemento: você verá que o mundo tende a oscilar e a ter seus altos e baixos. É um poderoso efeito borboleta que, dependendo do contexto, pode trazer a ruína total ou a salvação.

Sabe por que achamos Star Wars tão legal mesmo décadas depois do lançamento de seu primeiro filme? A resposta é simples: nós fomos cativados pelos planetas lá apresentados, as raças alienígenas que parecem se encaixar às paisagens e ao ambiente que pertencem. Nós torcemos pela Princesa Leia e pelo Luke Skywalker, e tememos o Darth Vader e a Estrela da Morte.



Quando você vê que um sujeito pode estrangular uma pessoa sem precisar tocá-lo, acaba sendo possível acreditar também que uma arma é capaz de destruir um planeta com um raio laser.

Lembremos do grande escritor J. R. R. Tolkien, pai da alta fantasia, criador da Terra-Média, lar de hobbits, elfos, anões, orques, e muitas outras criaturas. É imprescindível que eu o mencione, já que ele é um dos pioneiros nesse lance de worldbuild (criação de mundos, dito de um jeito metido à besta). Ora, veja bem, quem aqui não gostaria de ter uma vida de hobbit? (Comer muito, festejar, ter boas fofocas para se entreter o dia inteiro, não precisar se preocupar com nenhuma notícia ruim do mundo exterior). É uma maravilha! As maiores críticas acerca da escrita de Tolkien são justamente por sua prosa lenta e demorada. Ele leva tempo para fazer os hobbits saírem do Condado, passando por longas florestas verdejantes até que a história “comece” de fato. Hoje é fácil criticar esse tipo de descrição, uma vez que o tempo passou e já sabemos muito bem o que é o universo do Senhor dos Anéis e o que é um “hobbit”. Numa época na qual as informações eram providenciadas majoritariamente através da leitura, e na qual pouco havia rádio e o cinema engatinhava, era necessário criar a imagem com as palavras. Um parágrafo inteiro sobre uma miríade de tons de verde pode soar maçante para um leitor de hoje, mas para aqueles que liam pela primeira vez um texto, considerado hoje uma obra-prima, ah, isso fazia toda a diferença! Na verdade, ainda faz. Adaptações, por mais fiéis que sejam, nem de todo são iguais. Há detalhes que, por exemplo, Peter Jackson deixou passar de propósito ou não pôde adaptar por questões orçamentárias. Isso se reflete no conceito de worldbuild — o diabo está nos detalhes.



Posso — e devo — citar Duna, de Frank Herbert, como outro expoente de um bom worldbuilding. Arthur C. Clarke, um dos três grandes autores da era de ouro da ficção científica, disse: “Não conheço nada que se compare a este livro, exceto por Senhor dos Anéis”. E quando o saudoso Clarke falou isso, ele quis dizer que Duna era um épico, contendo elementos de uma narrativa bem elaborada, universo rico em detalhes, e personagens que são tão reais que você sente forte empatia por eles.

Duna é excelente em muitos aspectos e é um dos principais influenciadores de Star Wars, que já citei neste texto. Herbert caprichou em criar Arrakis — ou Duna, para os leigos —, trazendo vida aos vermes gigantes em um planeta desértico abundante em uma especiaria rara, mas carente de água.



Eu pretendia citar o universo de H. P. Lovecraft, mas o post já ficou muito longo. E, verdade seja dita, eu estava apenas pavimentando a minha estrada, explicando para os poucos leitores que não entendem o que é um worldbuild (ô expressãozinha metida à besta) a fim de mantê-los inteirados do que escreverei futuramente aqui no blog da Diário Macabro. Como pode perceber, falarei sobre os mundos possíveis da ficção, tanto quanto eu puder, e tão detalhadamente quanto eu conseguir.

Lovecraft com certeza será citado por mim, mas também pelos colegas da editora. Impossível não citar.

Até a próxima.




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