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Nunca vi nem comi eu só ouço falar - parte I

“Eu não preciso aprender o be-a-bá.”



De tanto ver colegas escritores e interessados no ofício da escrita torcerem o nariz ao ouvir alguém falar sobre oficinas de escrita criativa, resolvi trazer hoje pra vocês um panorama sobre os tipos de cursos e oficinas existentes.

Podemos começar com a noção de que qualquer atividade que se queira aprimorar necessita de conhecimentos específicos. Essa premissa acaba se modificando quando a concepção do que sejam oficinas de escrita se limitam a alguns pensamentos, tais como: “fulano quer me ensinar a escrever” ou o não menos dito “por que eu vou fazer um curso se eu já sei escrever?”. Investir no aprendizado gradual e sair da zona de conforto é mais um convite opcional do que uma regra ou obrigatoriedade. Uma atividade que pode ser exercitada tanto na participação em cursos quanto na leitura de livros que se distanciam do formato de manual.

Hoje a coluna não irá dizer a você exaustivamente: “você precisa ler os clássicos”. Pretendo trazer um pouco da minha experiência com cursos e oficinas, além de indicar leituras que considero importantes não somente para entender os fundamentos da escrita, como para exercitar a criatividade. É importante frisar que nem a criatividade nem o dito talento podem ser “ensinados”, mas desenvolver e aprimorar técnicas pode tornar a escrita mais aguçada e ainda melhor.

Nas oficinas de escrita criativa é comum que se aprenda a criar diálogos mais orgânicos, fortalecer personagens e arriscar contextos e gêneros alheios às experiências anteriores dos participantes, a depender é claro da temática da oficina, que podem ser mais ou menos específicas e de duração variável: há oficinas de horas, dias, meses e aquelas online, que dependem da disponibilidade de acessar os materiais, a critério dos participantes. Deve-se deixar de lado a concepção de que em uma oficina se participa de uma aula, tendo como base os moldes escolares e universitários. Na oficina, o principal objetivo é o exercício e a maior qualidade é o feedback tanto dos ministrantes como dos colegas participantes. É, em parte, um processo similar ao ato de enviarmos os nossos trabalhos para um leitor ou amigo escritor e posteriormente recebermos críticas e opiniões que poderão afetar os textos originais. Numa oficina, normalmente os colegas são, em sua maioria, escritores, o que torna esses ambientes um grande espaço de diálogo, uma conversa em que as trocas se baseiam na intenção de qualificar os textos dos colegas.

Aprende-se, e muito, nesses atos conversacionais, pois, além das técnicas e ferramentas expostas pelo ministrante, há o grande atributo da resposta direta por diferentes pessoas. Há oficinas gratuitas e pagas, presenciais ou online, de modo síncrono e assíncrono. Como já tive experiência em todos os formatos expostos, apresentarei um pouco do que são esses espaços de conhecimento.

Em uma oficina presencial normalmente há a apresentação dos participantes e do ministrante, passando à explicitação do funcionamento. Há muitas vezes a premissa de explicar sobre conteúdos basilares, como construção de personagens, narradores, conflitos e temáticas adjacentes. Ou, também, pode-se partir para os comentários de algum livro combinado anteriormente ou a leitura de um texto compartilhado durante a aula. Ainda há aquelas que partem, após as apresentações, direto para a prática. Na prática, são promovidos exercícios que terão algum tempo determinado para serem feitos. Imagine ter dez minutos para escrever sobre uma memória ou sobre uma notícia lida no dia interior? É um exercício que ajuda a envolver os participantes e é como um aquecimento, pois a partir desse momento, ao ver os colegas compartilhando seus textos, os participantes passam a se engajar mais e mais nas práticas e desafios.

Participei de duas oficinas presenciais, que posteriormente tornaram-se síncronas online devido ao avanço do Coronavírus no Brasil. A primeira, uma disciplina semestral com o escritor Assis Brasil[1], com um encontro por semana com cerca de três horas de duração. Nessa oficina de criação, foram explorados: o conceito de romance, a criação de personagens, a focalização, estrutura do romance, o clímax e o final do romance. Além dos materiais visuais compartilhados, houve a indicação de leituras extras e auxílio durante as propostas de desenvolvimento da escrita dos envolvidos. Cada um dos participantes (cerca de vinte pessoas) tinha que utilizar a oficina como motor para o desenvolvimento de um projeto individual que poderia ser uma novela ou romance, tendo como base os preceitos e discussões mobilizados durante os encontros. Nesse processo de construção narrativa, foram pensados e estruturados os resumos, resumos expandidos, e sinopses dos projetos, todos discutidos em sala de aula.

A segunda oficina, voltada às práticas para escrita de romance, foi ministrada por Daniel Galera[2]. Com oito encontros de duas horas e meia e doze participantes, a oficina voltou-se a autores que estivessem em diferentes níveis da escrita de um romance, inclusive com participantes que não tinham nenhum projeto ao ingressar na oficina, outros que estavam no meio do processo de escrita, e ainda aqueles que buscaram na oficina uma oportunidade de partilhar o texto finalizado. Além da discussão dos projetos em si, a oficina funcionou como um seminário, sem passar por conteúdos expositivos e exercícios, mobilizando críticas e debates sobre os trabalhos dos participantes. Houve ainda duas leituras sugeridas durante os debates e alguns aspectos foram especialmente abordados, tais como: voz narrativa e estilo, consistência de personagens, fórmulas e clichês.

Agora irei tratar de duas abordagens em oficinas online síncronas, que têm algumas semelhanças com as lógicas das oficinas presenciais, pois também se voltam para as práticas em exercícios de escrita e compartilhamento de críticas.

Pude participar de uma oficina sobre os Modos de Narrar, com a escritora Natalia Borges Polesso[3], com dois encontros totalizando seis horas e com cerca de vinte participantes. Nessa oficina, ela nos pediu para pensar em um personagem e responder as seguintes perguntas: “Qual é o seu nome? De onde você é? O que você faz? O que você não faz? O que está lendo agora?”. A essas perguntas respondi: “Sou Morgana, taróloga e hipnoterapeuta de regressão a vidas passadas. Leio todos os livros que a sociedade proíbe e tenta censurar sobre vidas em outros planetas, ordem mundial e os reptilianos. Moro sozinha na Lapa, ando de perna de pau nos bloquinhos de carnaval e consumo um pouco de expansores da consciência. Todos os domingos faço maratona de 90 dias pra casar”. E aí cada um dos colegas respondeu de acordo com o personagem que haviam construído através das perguntas. Então veio o desafio: nós manteríamos o personagem e o que fazem, mas as demais informações seriam trocadas com os colegas. Além disso, durante os encontros, poderíamos somente nos manifestar falando como se fossemos os personagens. Podem imaginar que o resultado disso foram muitas risadas, enredos compartilhados sem que fossem combinados entre os escritores, e ainda houve os crossovers, pois os personagens de outros colegas apareceram em narrativas sobre descobrir o futuro com a minha personagem Morgana.

Em outra oportunidade, numa oficina síncrona de duas horas sobre Terror, com Irka Barrios[4], cerca de catorze participantes tiveram como base de referência o conto “Venha ver o pôr do sol” de Lygia Fagundes Telles. Na ocasião deveríamos escolher uma das cenas do conto, que se passava em um cemitério, e escrever uma narrativa curta como se fôssemos a personagem Raquel. É muito interessante observar como, mesmo em uma narrativa e proposta mais fechadas, houve a pluralidade de vozes e contextos diferentes explorando a mesma personagem-base. Além disso, todos os textos tiveram cerca de vinte minutos para serem escritos, e então todos os participantes que se sentissem à vontade poderiam compartilhar seus textos, tendo retorno dos comentários e impressões dos colegas.

É possível observar o quanto diferentes propostas de oficina atuam como espaços significativos de crescimento profissional e pessoal, particularmente no quesito comunicacional. Nas modalidades elencadas, a convivência com outros escritores é uma oportunidade de conhecer pessoas, projetos, obter dicas e referências que colaboram para a formação do escritor. Dessas oficinas saem muitas parcerias, amizades e até mesmo a ideia de um novo romance ou conto. Mesmo que todos os “conteúdos” mencionados já sejam conhecidos por algum participante, o compromisso e a iniciativa de estar em uma oficina e lidar com diferentes pessoas e desafios criativos sempre serão uma oportunidade única de aprendizado.

Na próxima coluna, irei abordar os cursos de criação literária assíncronos, além de deixar uma lista de referências para quem prefere acessar os livros de teoria sobre escrita criativa.

Até a próxima.

[1] Assis Brasil é doutor em Letras e professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. Possui mais de vinte livros publicados, inclusive com adaptações para o cinema; foi premiado, entre outros, com o Prêmio Literário Machado de Assis (2001), Prêmio Jabuti (2003), e Prêmio Oceanos (2004). É o fundador da oficina de criação literária mais antiga do Brasil, que comemorou 35 anos em 2020. [2] Daniel Galera é escritor e tradutor de literatura contemporânea de língua inglesa, publicou cinco romances e tem diversas obras publicadas fora do Brasil. Recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura (2003), Prêmio Machado de Assis (2008), Prêmio HQ Mix (2010) e Prêmio São Paulo de Literatura (2013). [3] Natalia Borges Polesso é escritora e doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS. Atualmente é pesquisadora de pós-doutorado com bolsa CAPES na Universidade de Caxias do Sul. Foi premiada com o Prêmio Açorianos (2013) e o Prêmio Jabuti (2016). [4] Irka Barrios é mestre em Escrita Criativa pela PUCRS. Contista e novelista, foi finalista do Prêmio Jabuti (2020) e vencedora do Prêmio Brasil em Prosa pela Amazon (2015).




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