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O Príncipe e a Utopia


Quando se juntam dois atratores culturais como Utopia, de Thomas More, e O Príncipe, de Maquiavel é fluido pensar nas borboletas de Lorenz: cada asa é diferente, mas o diálogo entre elas leva ao voo do espanto.

Os adjetivos “utópico” e “maquiavélico” carregam significados distintos e avessos, sem nenhum nexo entre eles. Porém, quando justapostos (maquiavelismo utópico ou utopia maquiavélica), provocam um arrepio de estranheza. Alguma coisa parecida com o a expressão “servidão voluntária” do livro de Étienne La Boétie, um "conceito inconcebível" que "repugna à língua" porque é um "fato político aberrante" (Claude Lefort).

Os dois termos juntos — utopia e maquiavelismo — formam um oxímoro ambíguo: o sentido combina perfídia, ardil e má-fé, com perfeição política e situação, ou lugar, ideal.

Ambos são verbetes centrais do pensamento político moderno, originários de obras que eclodiram quase juntas, separadas por três anos de diferença: O Príncipe, 1513 e Utopia, 1516. Ambas surgiram quando a Razão estava se espreguiçando nas duas bordas cultas da Europa: Florença e Amsterdam. Expressam duas Renascenças, a italiana e a nórdica. São coisas novas no espaço mental humano, astros anômalos, que subvertem os modelos da Antiguidade.


Atualmente, abrir uma obra que tenha utopia no título é um lance de dados. O horizonte de eventos em torno de Thomas More é guloso, devora tudo: lugares e viagens extraordinárias, projeções das ciências, eldorados e cidades fantásticas, ficções ideológicas e políticas. Quando não distopias, eutopias, ecotopias, acronias e outros desvarios. Enfim, todos os temas cabem na palavra. Aliás, a relação das obras é tão aleatória e injustificada quanto aquela lista de J.L.Borges, citada por M.Foucault, no início do livro As Palavras e as Coisas. Porém, enquanto a lista de Borges compila apenas bichos inclassificáveis, as utopias têm somente a imaginação como limite.

O filósofo-estudante Emil Cioran (1911–1995) no livro História e Utopia argumenta que o ideal utopista é absolutamente necessário, porque todas as religiões são viagens entre dois eventos ou espaços utópicos, começando nos Édens e terminando em Paraísos ou Infernos. As utopias são intrínsecas e congênitas ao homem.

Diferente das utopias, que apenas transfiguraram o passado, o maquiavelismo é um olhar novo e corajoso, que rompe com todas as ideias e regras políticas vigentes, cheias de acordos, direitos e acomodações. Repudia a narrativa e a gramática do velho poder, é um discurso alienígena, futurista e desconhecido no século XVI, não descrito nas ordens medievais, alheio a todas as categorias e exercícios de dominação política conhecidos. Sua única mestra é a História impassível, que para resolver conflitos usa apenas eficácia e determinação. Por isso, uma cruzada se conjura para destruir a criatura e o criador, livro e autor. Congregando todas as classes dominantes e dirigentes.

Curiosamente, quando avaliamos os conceitos utopia e maquiavelismo tomando por base a História das Ciências Humanas e os dicionários políticos e filosóficos, observamos que utopia é operacionalmente mais importante, pelo espaço que lhe é dedicado, pelas questões que coloca etc. Enquanto maquiavelismo é registrado como um procedimento político reprovável e carregado de conotações negativas.

Inversamente, quando confrontamos os livros Utopia e O Príncipe, utilizando os mesmos critérios, constatamos que o segundo é mais funcional e contundente, porque reformula as bases do pensamento político, alargando seu raio de ação. Maquiavel é preponderante na instauração do Estado Moderno, sua influência nos pensadores posteriores é imensa.

O Príncipe parece um manual técnico — escrito para circulação interna, mas que de repente vem a público —, de estilo seco, direto, franco, objetivo, didático e verdadeiro; abstraído "de períodos sonoros ou de palavras empoladas e floreios ou de qualquer outra lisonja ou ornamento extrínseco" (carta de Maquiavel a Lourenço de Médici). Condensa todo o saber de um funcionário experiente, competente, observador e bem treinado no seu trabalho. O texto é tão incisivo e agudo, que vários comentadores, por causa disso, restringem e limitam sua abrangência como Filosofia Política.

Na Utopia, a questão é diferente: ocorre uma espécie de torção, de cisão sutil na sua origem. Politicamente está voltada para trás, é mais uma releitura do passado do que uma antevisão do futuro. Tem importância como preservação, não como transformação. Na Literatura, contudo, sua força e novidade é predominante, estabelece um novo gênero. Apresenta-se como uma obra de muitos recursos, cheia de possibilidades, capaz de fecundar ideias. Começando pelo nome, um conceito montado, um neologismo, um substantivo pronto para engendrar significados. Num certo sentido, poderíamos dizer que Utopia se reduz como Política, para se maximizar como Literatura.

Trajetória análoga à de Dom Quixote que, apesar da honra de ser o primeiro romance moderno, narra uma antiquada aventura de cavalaria.



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