• Diário Macabro

Assuntos delicados na mesa de jogo — O pacto social


Uma coisa é comum a todas as mesas de RPG: os jogadores, à diferença de seus personagens, são pessoas reais com traumas, lutas, problemas, inseguranças, medos e preferências, cada um diferente do outro. Sob certos aspectos, cada mesa de RPG é um universo formado pelos universos de todos que estão ali sentados.

Quando lidamos com pessoas e queremos criar um ambiente lúdico seguro para todos ali se divertirem, é necessário pensar além do mero entretenimento; projetar um sistema para coibir abusos, assuntos desagradáveis e discriminação é algo essencial. Mas como fazer isso?


Existem diversas formas de como uma mesa pode criar as regras, milhares que regerão esse conjunto de normas e concordâncias sobre o que pode e o que não pode ser tratado num jogo de RPG, o que eu gosto de chamar de Pacto Social. Vou apresentar a vocês os que mais gosto dentre os que conheço, mas qualquer sistema igualmente eficiente vale… O que não vale é não ter nenhum sistema de controle.

Pode parecer excessivo criar esse controle na mesa, até porque temos a impressão de que, estando em um mundo de fantasia, podemos nos permitir extrapolar nós mesmos e cair no escapismo tóxico, em que o personagem é tudo de ruim que o jogador não ousa ser na realidade, mas não. Quando alguém topa jogar RPG ele quer, antes de mais nada, se divertir; sendo o RPG uma atividade coletiva, portanto, o objetivo de uma mesa é que todos se divirtam, podendo, claro, ser associado a um objetivo secundário como, por exemplo, uma discussão social.

Para que todos se divirtam, ninguém deve se sentir intimidado, incomodado ou preocupado com o que possa vir a ser tratado na ficção. Racismo, machismo, crimes hediondos, revisionismo histórico: os gatilhos para o desconforto e o fim da diversão são muitos e imprevisíveis. Graças ao bom senso, conseguimos identificar alguns problemas universais (ou que deveriam): nas minhas mesas, estupro é terminantemente proibido, por exemplo, enquanto racismo, machismo, homofobia e outros problemas similares devem ser deixados sempre para o vilão, nunca para o herói. Há, porém, muito mais coisas que podem incomodar, algumas até triviais para uns, mas que para outros, pode colocar o jogo a perder.

É por isso que a primeira sessão de qualquer mesa precisa ter a definição do Pacto Social. E, indo ao que interessa, como fazer isso?

O primeiro método é aquele apresentado no jogo “Arquivos Paranormais”, do Jorge Valpaços — aqui o link para uma minha resenha sobre o jogo — https://www.r2pg.com.br/2018/11/23/arquivos-paranormais/ chamado de Protocolos de Segurança, representados em três níveis: Amarelo, Laranja e Vermelho. Quando um Protocolo Amarelo for ativado, aquele assunto passa a ser tratado como Laranja, a narrativa para e uma conversa é entabulada com todos os presentes antes de retomar o jogo. Já protocolos vermelhos, quando ativados, interrompem imediatamente a sessão de jogo.

O segundo método é aquele desenvolvido por John Stavropoulos, o X-Card. Grandioso pela sua simplicidade, nesse caso o jogador que quiser parar o jogo pela abordagem de um tema sensível — para ele ou para outro que talvez não tenha força de espírito de fazer por ele mesmo— levanta um cartão com um grande X escrito. Não precisa falar o porquê, pois o mero ato de levantar o X-Card já é o suficiente. Para quem quiser conhecer mais, o material é gratuito, inclusive para compor eventuais materiais comerciais de jogo, conforme explicado logo no começo do documento linkado. O documento está em inglês:

https://docs.google.com/document/d/1SB0jsx34bWHZWbnNIVVuMjhDkrdFGo1_hSC2BWPlI3A/edit

Como terceiro exemplo, trago aqui uma produção minha, que nasceu para integrar o jogo Defensores do Bairro, que será publicado em um futuro próximo, mas que já serviu para ajudar a definir as regras em algumas mesas. Aqui, eu trato a questão com uma abordagem mais contratual entre os jogadores, visando uma maior seriedade de todos ao lidarem com o documento produzido ao fim do breve questionário. Deixo aqui o link para que usem e abusem:

https://docs.google.com/document/d/1mPBrYPz5VZLN4POGu89z8id2oOhgOfjE7gp879wxhfo/edit?usp=sharing

Enfim, desconfiem de mesas nas quais todos podem fazer de tudo. Mesmo na ficção, precisamos de limites para que a convivência com o próximo seja respeitosa, inclusiva e divertida.

E você, já usou algum método de Pacto Social em sua mesa de RPG? Me conte nos comentários!




112 visualizações1 comentário

©2020 by Editora Diário Macabro.