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O lugar do manicômio da literatura de terror e horror


Um dos cenários mais utilizado nas narrativas do terror e horror é o de hospitais psiquiátricos. Seja como local onde o protagonista supera obstáculos rumo à felicidade, ou onde encontrará seu final angustiante, e ainda não podemos descartar a clássica modalidade: manicômio desativado, no qual provavelmente um assassino em série vaga à espera de adolescentes desavisados ou também com suas paredes que abrigam espíritos sofredores esperando por vingança. Independente do seu uso no enredo da história, fato é que talvez esta seja a instituição mais presente nas narrativas desses gêneros.



Penso que a sua presença massiva em histórias macabras não é leviana nem casual. A insanidade tem sido motivo de temor por séculos: temos tanto medo de perder a razão, quanto temos daqueles que a perderam. O hospital psiquiátrico com suas enfermarias é o representante máximo desses amedrontamentos, afinal esta é a “casa” da loucura.

Como profissional de saúde mental, gostaria de me posicionar brevemente sobre os receios expostos acima. Lamento informar, mas doenças mentais podem ocorrer em qualquer um. Estes são transtornos inteiramente democráticos, você não estará mais seguro caso tenha saneamento básico, alimentação adequada, acesso à medicina preventiva. Caso haja predisposição genética e o evento estressor “certo”, você entrará para o clube. Em relação ao “medo do louco”, ele tem suas origens em dois pilares, que costumam se complementar: o preconceito e a desinformação. Não há nenhum dado indicando maior propensão a atos violentos por parte de portadores de doença mental em relação àqueles com os quais convivem.

Para complementar ainda deixo aqui um dado pessoal e empírico. Trabalhei por quase dez anos em hospitais psiquiátricos, fui agredida uma única vez. Uma vez. Uma taxa absurdamente menor, se comparado às violências sofridas por mim cotidianamente na cidade. Acerca desse episódio de agressão física, registro um último e importante detalhe: a culpa foi minha.



Deixemos de lado os internos e vamos nos concentrar na estrutura mais uma vez. Hospitais psiquiátricos são, por excelência, cenários perfeitos para ambientar narrativas de terror e horror, porém nem tanto pela loucura em si. Estas instituições são conhecidas pela violência, pela tortura e pelos maus tratos. Não só no Brasil como no mundo há relatos em abundância, através dos séculos, sobre barbáries cometidas contra quem deveria estar sendo tratado. Em território nacional, graças à Lei 10.216 de 2001, (sim, ela tem somente 19 anos), que regula o tratamento e pressupõe a extinção gradual deste tipo de estabelecimento, junto à implementação de novos serviços de tratamento mais adequados, preparados para lidar com essa parcela da população, caminhamos para fora dos muros decadentes e cruéis. Este terror real ainda é vivido por milhões de pessoas. Não se engane, Barbacena[1] não está no passado para uma grande parcela dos usuários de saúde mental.

Me despeço deixando referências, caso você deseje conhecer o verdadeiro horror e, quem sabe, ajudar a destruir esse monstro real.


– Movimento Nacional de Luta Antimanicomial (MNLA): coletivo de usuários, familiares, amigos e profissionais de saúde mental. Você encontra essa página no Facebook e no Instagram;

– “O homem e a serpente” e “Loucos pela vida”, ambos livros do Paulo Amarante, psiquiatra expoente na luta antimanicomial no Brasil;

– “Prisões, manicômios e conventos”, do sociólogo Erving Goffman. Nesse ensaio ele destrincha a lógica e o proposito destas instituições, inclusive tendo sido internado em um manicômio, a seu pedido, para escrever este estudo.

– Para uma experiência de terror ficcional completa que engloba os horrores sobrenaturais e humanos, não deixe de conferir a antologia Manicômio Salgueiro, da Editora Diário Macabro.









[1] Hospital psiquiátrico no interior de Minas Gerais, desativado na década de 80 após registros fotográficos e reportagens denunciando o ambiente insalubre e desumano aos quais os pacientes eram submetidos.

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