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Ninguém te obriga a escrever


Há quem acredite que artistas possuem certo dom ou mesmo uma sensibilidade mais apurada que os aproxime das questões humanas. Tais afirmações não são de todo incorretas, posto que é necessário que haja aproximação entre o que se quer escrever e a realidade do texto, o universo tem que fazer sentido dentro da narrativa.

Ao refletir sobre a obrigatoriedade da escrita, algumas dicas literárias me vêm à mente: escrever algumas mil palavras por dia, ler o quanto for possível de livros por mês e principalmente atender a certos esquemas ou etapas de desenvolvimento narrativo. Para além de algumas regras que têm fundamentos na teoria e crítica literária, há um movimento antecessor que talvez não seja tão discutido quanto deveria no terreno literário.


Ninguém te obriga a escrever.


Há exceções evidentes. Na universidade, por exemplo, a escrita é parte essencial e avaliativa do desenvolvimento de um curso, como também é para aqueles que fazem da escrita seu trabalho e atuam como produtores de conteúdo. A lista não é exaustiva. Diversas profissões têm a escrita como base de constituição e do funcionamento de sua área (como o Direito).

Aquém de trabalhadores da escrita, trago aqui oportunamente o foco para você, escritor de ficção, que está escrevendo ou planejando o próximo romance, conto, novela. Longe de assumir a atividade da escrita como uma espécie de aura que envolve o escritor e mais longe ainda da escrita que denomino como “semipsicografia”, aquela em que o escritor atua quase como um receptáculo. Afinal, quem nunca ouviu a seguinte frase: “o texto me veio pronto”, “o personagem age sem minha intervenção” ou “perdi o controle do texto”. Calma lá! Entende-se por princípio de que a arte nos move de maneiras, por vezes tão subjetivas, que tais imagens parecem traduzir de forma apurada as sensações e os sentimentos que nos envolvem ao sermos absorvidos por uma trama. E então, nessa vivência incontínua, somos acometidos por períodos de excitação e de imersão, e noites mal dormidas pelo fantasma do bloqueio criativo.

Um homem muito sábio, a quem chamo Mestre, em uma de suas conhecidas oficinas criativas, sentenciou essa frase como uma verdade um tanto inconveniente:

“Ninguém te obriga escrever.”*

Associada a essa sentença, meses depois, presenciei a não menos severa:

“Você não pode editar um livro que não foi escrito.”**

Tais palavras reverberam em constante sobre os projetos não concluídos, as pastas de ideias e o livro que está pronto, porém apenas na minha cabeça.

Há inúmeros motivos pelos quais alguém se arrisca nesse ofício um tanto quanto maldito: prestígio (há melhor sensação do que ter em mãos um livro com seu nome?); sobrevivência (quando a escrita é o exorcista de demônios), e o último, mas não menos importante: porque não poderia fazer outra coisa. De todos os eventos importantes para a história da humanidade, a finalização de seu projeto é um que não mudará o destino do universo.

Essa última é um tanto pesada para aqueles doentes de literatura que carregam quase o fardo de não poder fazer outra coisa que não escrever. Contudo, ainda assim, ninguém te obriga a fazê-lo. E é por acreditar nesse desejo visceral de ter algo a contar ao mundo que, sim, esqueça essa frase de que o seu projeto não mudará o destino do universo, pois acredito que ele pode mudar os destinos do universo. E é essa crença que talvez seja o fator essencial que fará o seu projeto ser finalizado. Mas ninguém disse que será fácil, afinal escrita é e dá trabalho!

É necessário pontuar que nada discorrido nessa coluna encerrará questões da Literatura, apresentarei ferramentas que poderão te ajudar no processo. De antemão, há temáticas que serão abordadas como o personagem, o papel do narrador, o espaço-tempo, além de indicações de bibliografias e cursos complementares que podem servir como base teórica para entender melhor o funcionamento do texto.

Para finalizar, como bem disse a Úrsula, na coluna Entrelinhas, “qualquer pessoa pode escrever” e é nesse caminho tortuoso, repleto de elementos que fogem ao âmbito da literatura, que te acompanharei nesse processo.

Até o próximo encontro!






* Professor Dr. Assis Brasil

** Escritora Cláudia Lemes


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