• Diário Macabro

Não espere pela inspiração, comece a escrever agora!


Para cada um que fala “mas escrever é fácil, só precisa ter inspiração”, um redator ou escritor sente uma fisgada no túnel do carpo. Ou pelo menos eu sinto que é isso que acontece. Geralmente o tio engenheiro que cospe isso nunca se deparou com o arquivo em branco do editor de textos do Windows e o cursor piscando no início da página. Ah, a maldita piscada que grita “seu desgraçado, quando vai começar a digitar?”.


Jogam no seu colo a demanda de escrever sobre os benefícios de tomar shakes emagrecedores e você — o pobre do redator, puto da sua cara — precisa pensar, antes de analisar os releases com propaganda enganosa, quais os boletos ainda estão esperando para serem pagos. Ah, você escreve por prazer e não imagina o Serasa mandando telegramas para seu endereço? Então é você mesmo quem deveria perceber o quanto de tempo, cansaço mental, bagagem intelectual e de tratamento psicanalítico é necessário para tornar esse prazer viável.



Mas o que estou falando? Na verdade, estou fazendo aquilo que os escritores não deveriam fazer: conversinha de cercar Lourenço, ou, para aqueles que ignoram meu dialeto de meados do século XX, enchendo linguiça. A charcutaria vocabular é uma prática milenar, meus amigos. É o endosso à falta de objetividade. Nenhum bom escritor deveria fazer, mas faz.


O cursor do Word continua piscando para mim em advertência “você precisa escrever essa crônica até sábado, sua preguiçosa. Para de ver documentário de true crime e vai escrever!”. Vou tentar a técnica da playlist de música instrumental. Abro meu Spotify, escolhendo aleatoriamente uma seleção pré-pronta. Agora vai.


Espera, mas crônicas não precisam ter leveza? Humor? Ah cacete, como vou conseguir escrever algo engraçadinho ouvindo Chopin? É, eu sou um fracasso até para escolher a música que vou ouvir para me ajudar a parir uma crônica.


Respira, vai dar certo. Você ainda pode mirar na reflexão sobre o cotidiano. Não quero falar sobre corona vírus, não; todo mundo já fala disso. Falar do lunático que preside o pardieiro que virou o país eu também passo, deixo isso para o Duvivier.

Volto para o ponto de partida em que, eliminando as possibilidades, vejo que a crônica vai ter que ser sobre escrita. O cursor ainda piscando, o café — companheiro de grande parte dos escritores desesperados — ficando gelado, e a minha vontade de xingar o próximo infeliz que falar para mim “mas escrever é só ter inspiração” aumentando. Saudades de quando bastava fazer a linha gênio incompreendido esperando as Musas — oh musas, cantai —, mas acho que elas só aparecem para os que ainda usam mesóclise.




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