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Mausoléu Entrevista: Sean Barbosa – Compositor de trilhas e arranjador


Sean Barbosa é compositor e arranjador, formado em guitarra pelo Conservatório Brasileiro de Música; cursa bacharelado em Música: Composição na UFRJ. Já trabalhou com trilhas sonoras com a produtora de vídeos Deslegendário Pictures, no média-metragem “Operação Resgato 2” e a série “Os Cumpadis: A Série Clássica”. Hoje, ele vai nos contar um pouco mais sobre esse ramo que, para muitos, ainda está cheio de mitos e mistérios.



1 – Para começar, poderia nos contar um pouco sobre como é a formação em um instrumento em um conservatório musical? Quais são as dificuldades e os prazeres em estudar música de forma acadêmica?


SB: Minha formação no CBM foi bem focada no aspecto da técnica tácita no instrumento e embasamento da teoria musical para uso teórico-prático do dia a dia de um músico. É de um enorme prazer poder dizer que escolhi um instrumento com o qual me identifiquei pela sua vasta possibilidade sonora. Apesar do meu primeiro instrumento ter sido piano, a guitarra e suas formas de expressar me fascinam até hoje.


Ao escolher o bacharelado de Composição na Escola de Música da UFRJ (EM-UFRJ), pude explorar diversas perspectivas musicais a partir da teoria: técnicas de composição, relacionadas à música tonal e atonal, estudos de harmonia/ritmo mais aprofundados que no curso técnico, e experiência de escrita e escuta musical mais ampla do que antes tive na vida, como músico e como um ouvinte.


As dificuldades que eu tive nesse trajeto foram algumas de ordem financeira: mesmo com um suporte familiar, ainda é necessário ter uma renda para manutenção de instrumentos para continuar os estudos. Já tive alguns trabalhos fora da música que me ajudaram em alguns momentos, mas o peso psicológico foi bem intenso para minha pessoa, desenvolvi problemas de ansiedade e depressão devido ao coaching/positivismo excessivo e após algumas sessões de terapia, só de estar aqui poder falar sobre meu (ainda pequeno e) humilde trajeto de vida, é uma vitória para mim.


2- E como funciona o ofício de compositor de trilhas sonoras?


SB: É um trabalho no qual o compositor respeita o direcionamento musical e emocional das cenas de uma história, expressadas por meios audiovisuais como filmes, séries, jogos, audiobooks, etc. Normalmente, é recomendável ao compositor desse ofício ter um ouvido musical bem amplo para compor: usar recursos composicionais para escrita de orquestra, sintetização, bandas de diferentes formações, a serem aplicados em diversos gêneros musicais para variadas cenas de diferentes histórias.


Diria que, apesar de existir há décadas, hoje em dia a música criada com instrumentos virtuais é algo extremamente comum nesse ambiente de trabalho, devido ao acesso universal a esses instrumentos e aos DAW’s (Digital Audio Workstation/Estação de Trabalho de Áudio Digital) como Ableton (o qual uso mais nesse momento), Cubase, Reaper, etc. É de “grande facilidade” poder reproduzir a massa de uma orquestra, uma banda de rock, jazz e outras formações, utilizando poucos VST’s (Virtual Studio Technology/Tecnologia de Estúdio Virtual; instrumentos virtuais).


3 - Você já trabalhou em algumas trilhas, como em “Operação Resgato 2” e “Os Cumpadis”. Como funciona o seu processo criativo? Poderia nos contar um pouco mais sobre os processos que um compositor e a produtora conduzem para criar uma trilha sonora?


SB: Eu expus meu processo criativo em grande parte no 7º Encontro do Fórum de Compositores da EM - UFRJ: na minha primeira experiência ao fazer trilha sonora na vida, tive uma ideia de “criar” uma “estrutura musical em aspecto narrativo” para cada trilha que fiz. Integrei algumas ideias que aprendi lendo o livro do autor Robert Mckee chamado Story, no qual o autor apresenta uma estrutura de história, o que me chamou muita atenção, pois, apesar de não ser diretamente relacionada à estrutura que propus no fórum, as relações que desenvolvi da história com a música foram tiveram resultado bem interessantes.


Com o diretor Lucas Stuvok, fizemos discussões sobre as cenas, que me foram passadas para poder expressar a emoção da situação que os personagens em cena estavam passando a partir da música. Eu desenvolvi temas e incisos musicais os quais pudesse reaproveitar de maneira ampla, respeitando o espectro emocional das cenas de cada história, a partir de influências (e referências que eu e Stuvok discutimos) de alguns compositores como John Williams, Danny Elfman e Alan Silvestri. Mesmo em temas bem característicos, usá-los em contextos diferentes foi algo que aprendi com os compositores já citados (além de ser conhecido o uso de leitmotif pelos compositores de ópera) e consegui inseri-los com sincronia na história, dando uma coerência que, apesar de ser possível fazer com cue sheets, a tecnologia atual de sincronização de áudio e imagem consegue deixar tudo bem mais preciso que antigamente.


Em “Operação Resgato 2”, consegui desenvolver parcialmente essa estrutura musical de aspecto narrativo, mas em “Os Cumpadis: A Série Clássica” consegui inserir totalmente a ideia da estrutura: ao sincronizar áudio e imagem, consegui utilizar os mesmo temas/inc em momentos diferentes, a cada momento de cada episódio de maneira bem controlada. E como eu não sei se irei participar futuramente de projetos da Deslegendário (mas pretendendo muito!), fiz temas que respeitassem a ideia da série ser um prelúdio ao Universo Deslegendário, que o Stuvok tem construído ao longo dos anos em suas franquias, para que, quando eu voltar a trabalhar com elas, possa ter uma base de desenvolvimento composicional adiantada na hora de compor com os temas que já fiz antes (caso eu possa utilizá-los), ajudando no tempo de entrega da trilha em geral.


4 – Como você enxerga o mercado de trilhas sonoras atualmente? Com uma maior evidenciação do cinema brasileiro (principalmente o de horror e terror), você enxerga uma expansão do mercado?


SB: Mesmo estando limitado pela experiência, sempre pesquisei em grupos de Facebook sobre o mercado e, independente do gênero, enxergo um crescente interesse em trilhas sonoras, mesmo sem ser em grandes produções, ao longo da década de 2000. A acessibilidade digital de trilhas sonoras tem inspirado muitos diretores e compositores a ter suas trilhas sonoras autorais, seja do menor ao maior orçamento possível.


É com pesar admitir que eu sou, nesse momento que escrevo, uma pessoa com conhecimento muito limitado em trilhas sonoras do cinema brasileiro de horror e terror, foi bem recentemente tive que interesse em investir meu tempo a conhecer os gêneros...mas tudo o que eu disse antes, desde descrever o ofício do compositor de trilhas ao parágrafo anterior dessa resposta, é aplicável: quando se existe um nicho de um mercado, sempre é possível fazer uma expansão dele. A expressividade humana é um universo em expansão que vem de dentro para fora, e um dos meios para expressá-la e senti-la, talvez o principal, é a arte.


5- Sabemos que é impossível compor qualquer tipo de música criando a partir do nada… somos sempre influenciados por alguém. Quais suas maiores inspirações?


SB: Algumas das mais marcantes que tive na vida, especificamente em trilha sonora, seriam a Yoko Shimomura, John Williams e o Danny Elfman. Mas busco normalmente inspirações em outros gêneros musicais durante a composição das trilhas, variando, com boa frequência, atualmente entre rock progressivo (ex.: King Crimson/Robert Fripp, Rush e Genesis), jazz (ex.: Chick Corea, Herbie Hancock, Hélio Delmiro), new age (Vangelis, Michael Hedges, André Geraissati) e inúmeros outros. Sempre me sinto disposto a me abrir ao que escuto de novo e a inserir ao que já me foi enraizado.


E, apesar de soar clichê, eu insisto em dizer que algumas pessoas próximas a mim são as grandes inspirações: meus professores de Música e amigos que me inspiraram a continuar nessa carreira musical, mesmo eu estando em altos e baixos de minha própria mente.


6- Quais são, na sua opinião, as três melhores trilhas sonoras de todos os tempos?


SB: Definitivamente, pedindo uma licença poética na quantidade de filmes, a saga Star Wars do John Williams foi um marco imenso na história das trilhas sonoras, com o conceito de “ópera espacial”; Blade Runner de Vangelis, com um uso incrível de sintetização sonora de difícil reprodução; e “O Exorcista” de 1973, que além da marcante “Tubular Bells Pt.1” do Mike Oldfield, traz a música contemporânea de Penderecki e Crumb mescladas no filme — de uma maneira próxima de sons diegéticos como em “Era Uma Vez no Oeste” (trilha sonora de Ennio Morricone, que partiu esse ano) — me fascinam muito toda vez que assisto.


7- Recomenda algum compositor de trilhas brasileiro?


SB: Talvez o único de terror de quem eu me lembre agora, ainda no começo, é o meu amigo Ítalo Zanotti que fez uma trilha, esse ano, para um curta de terror chamado “3 da Manhã”, bem inspirada em “Suspiria” de 1977. Outros compositores, de quem eu conheça o trabalho, não necessariamente no terror, recomendo: Antonio Pinto (“Cidade de Deus”, “Central do Brasil”), Heitor TP (“Madagascar”, “Meu Malvado Favorito”), Mateus Alves (“Aquarius”, “Bacurau”); e, apesar de eu não conhecer muito outros trabalhos, não posso deixar de citar também o conjunto Sa Grama, que fez a trilha sonora do clássico “O Auto da Compadecida”.


FIM DA ENTREVISTA



Anotações avulsas do Sean Barbosa, a pedidos:


- Minhas redes sociais:



- Links dos vídeos que contém minhas trilhas sonoras com a Deslegendário Pictures:



  • Os Cumpadis: A Série Clássica: - Outros Links:


https://www.youtube.com/playlist?list=PLI1qYbDnJETeAIwpyU8HILIL5a9WUqOXF&fbclid=IwAR1XZI8MQDiB8Jir1wGuYmUApo6lVlsLbEhyHB-NjypSzodLl1JV-KZOni8



  • Link do curta-metragem “3 da Manhã”:

https://www.youtube.com/watch?v=iab3ZIk2ZSw&feature=youtu.be&fbclid=IwAR097wM4EAt-gOfG2wbRpbo2u5_awXmun77b1Kb7dEoV1MkcN2CK0LUR2jE




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