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Sob a faca do cirurgião: M. Marais e sua viola sangrenta

Quando geralmente pensamos em música clássica (ou melhor, erudita, pois clássico mesmo é somente um dos vários períodos aos quais ela pertence), logo imaginamos uma música tranquila, pomposa, cheia de floreios e classe. Para além da música, imaginamos seus compositores como pessoas caprichosas, soberbas, que falam mole e cheio de rodeios, sempre usando aquelas perucas brancas, cheias de pó-

de-arroz, não? Mas não é culpa nossa... Essas imagens caricatas foram exploradas pelo cinema e pela cultura em geral, contudo, ela está longe de ser uma verdade. O Mausoléu dos Ruídos está aqui para quebrar esses paradigmas, e mostrar que a música erudita pode (e sempre foi!), não só um território sombrio e macabro, mas também uma música muito mais heavy metal que muita banda por aí.

Nosso “compositor de ruídos” de hoje é Marin Marais, um francês traumatizado por uma cirurgia.

Músico na corte do Rei Sol

Marin Marais (1656 – 1728) nasceu em uma Paris escura, fétida e ainda não reformada, durante o esbanjador e suntuoso (para os nobres) reinado de Luís XIV, o “Rei Sol”. Como qualquer homem de cultura, naquela época, Marin tocava algum instrumento (e isso significava dominá-lo por inteiro!); fazia parte da educação dos pequenos, filhos dos mais abastados, claro, aprender algum instrumento que pertencesse à orquestra, e não era incomum que advogados, legisladores, políticos e até generais de guerra soubessem executar muito bem alguma peça ao violino ou cravo. Marais não fugia à essa regra, e depois de estudar composição com o maior compositor vivo na França de Luís XIV — a saber, Jean Baptiste-Lully —, Marais embarcou, como mestre na viola da gamba (um parente distante do violino/viola e violoncelo), e também como compositor, na carreira musical, tendo escrito mais de quatro óperas, além de uma vastidão incontável de peças curtas e longas para diversos instrumentos. Em 1676 tornou-se músico oficial no Palácio de Versailles e, como um virtuoso, não demorou para conquistar os nobres com seu talento incalculável.

Acontece que Marais, num dado momento de sua carreira, começou a sentir dores muito incisivas, que começaram a incomodá-lo em um lugar, digamos, um tanto delicado...

E em uma época onde amputações eram feitas sem anestesias — pois não haviam sido ainda criadas —, e o máximo que você poderia ter de consolo antes de arrancar três ou quatro dentes de uma vez eram uma ou duas doses de conhaque (por sinal, caríssimas), Marais viu-se em uma situação um tanto... traumática.

Na mesa de operação, sob a faca do cirurgião

Marais estava sofrendo das dores causadas por uma pedra na bexiga. Fator genético ou abuso de sal, temperos e álcool, não se sabe, mas as dores que Marais sentia ao “esvaziar o tanque” começaram a atrapalhar sua carreira. Ele então recorreu ao temido recurso médico. Se vocês pensam que arrancar um dente ou um cisto hoje em dia é um martírio, imagine qualquer uma dessas operações há 300 anos, sem anestesias, sem higiene, sem qualquer profilaxia. Ora, não é de se espantar que Marais tenha quase morrido... de dores!

Para resumir a operação pela qual passou nosso violista, ele teve de deitar sobre uma mesa, mãos atadas por cintas de couro, as pernas abertas, os tornozelos também presos por cintas firmes, um pedaço de tecido entre seus dentes (para que não quebrassem com a dor) e, claro, tudo isso... nu. Essa operação que mais parece um conto do Marques de Sade, ou uma letra do Rammstein, tinha como objetivo, extrair a pedra pelo caminho mais curto: a uretra. O médico então fez uma pequena incisão na glande, penetrou todo o canal com um fórceps e, com esse instrumento, procurou (às cegas) pela pedra. Após achá-la, apanhou-a com a “garra” e puxou-a lentamente para fora. Esse era o procedimento padrão para qualquer litotomia.

Não é preciso dizer que nisto havia sangue, muito sangue, dor, gritos e, claro, traumas.

Foi esse trauma que inspirou Marin Marais a escrever sua peça mais sombria, Le Tableau de l'Óperation de la Taille, encontrada na Pièces de Viole, Livre V (Peças para viola, livro V). Uma peça sombria que LITERALMENTE descreve uma operação de pedra na bexiga (ou Litotomia). A peça é um tanto incomum, e é preciso dizer que ela foge totalmente das práticas musicais da época. Escrever algo assim era uma ousadia muito grande. Não me refiro somente às dissonâncias e sons medonhos e desgarrados, como poderão ouvir a seguir, mas também pela voz. Sim... há uma voz que discursa (mas sem cantar) na peça. Essa voz representa o sádico doutor que executou sua cirurgia.

Segue, como cortesia, o discurso a ser recitado durante a execução da peça, em francês, e uma tradução (livre) exclusiva feita por este que vos escreve:


Le Tableau de l'Operátion de la Taille

L’aspect de l’appareil

Frémissement en le voyant

Résolutions pour y monter

Parvenu jusqu’en haut

Descente du dit appareil

Réflections sérieuses

Entrelassement des soyes entre les bas et les [jambes]

Icy se fait l’incision

Icy se fait l’introduction de la tenette

Icy l’on tire la pierre

Icy l’on perd quasi la voix

Ecoulement du sang

Icy l’on oste les soyes

Icy l’on vous transporte dans le lit

Descrição da operação de cálculo

O aspecto da mesa de operação

Tremendo ao vê-la

Determinação ao subir nela

Chega em cima dela

A descida do referido aparelho

Graves reflexões

Entrelaçamento de sedas entre os braços e pernas

Aqui a incisão é feita

Aqui introduz-se o fórceps

Aqui puxamos a pedra

Aqui perdemos a voz

Escorrimento do sangue

Desatamos os nós da seda

Nós o transportamos para a cama.

Link para ouvir o sofrimento de Marin Marais:





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