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LER NO TRANSPORTE COLETIVO: UMA PERÍCIA PARA POUCOS?


Estava reparando esses dias o quanto não estar mais utilizando o transporte coletivo para ir ao trabalho, devido à pandemia de Covid-19, diminuiu meu ritmo de leitura nos últimos meses. Ficar em casa e ir trabalhar de carro tornaram bastante complicado o engajamento na leitura, não evoluindo mais do que um mísero capítulo ou dois a cada vez que pego um livro para ler. 

Quando levava os livros para poder ler enquanto esperava a fila do mercado ou alguma sala de espera, geralmente não rendia quase nada também. Sempre havia alguém para atrapalhar ou algo para me distrair. Agora, com a insegurança de pegar uma doença mortal, tenho evitado sair com meus livros, ainda que eu continue com algum exemplar na mochila.

Acredito que o ônibus me facilitava justamente por eu não buscar outras formas de distração, como o celular. O fato de não me sentir seguro mexendo no smartphone me possibilitava usar o livro para vencer o tempo do percurso, que é relativamente grande. Sem a leitura, sinto o tempo mais longo e desconfortável, mas quando estou lendo, fico até triste quando tenho de descer no meu ponto.  

Foi há alguns anos, depois de uma postagem no meu Instagram, que fiquei surpreso ao descobrir que essa “habilidade” é muito invejada, o que me fez sentir até privilegiado. Muita gente disse que sofre episódios de náuseas, passam mal com facilidade quando tentar ler no ônibus. Eu não vou ser mentiroso e dizer que é agradável: dependendo do tipo de estrada que o ônibus percorre, fica impossível você fixar seu olhar em alguma frase, mas, no geral, eu me dou muito bem.

Quando parei para analisar, percebi que quase ninguém lê no transporte coletivo, pelo menos não um livro. Os smartphones têm seu lugar garantido nas mãos da maioria dos passageiros. Será que as telas dos aparelhos não causam o mesmo desconforto que um livro feito de papel?

É incrível como eu acabei me acomodando a essa maneira de leitura. Antes da pandemia, não conseguia ler mais do que meio livro por mês, se fosse depender desse ritmo em casa. Quando estou de folga, assisto filmes, entro em redes sociais, limpo a casa, arrumo a estante, mas ler, que é bom, quase nada.



Essa “leitura de ônibus” só era possível se eu conseguisse ir sentado, coisa que eu fazia questão de tornar possível, esperando às vezes até um pouco mais para conseguir um assento. Em pé era inviável, pois, além de empurrões e do chacoalhar do ônibus, tinha que me segurar pra não cair com os solavancos após as curvas ou alguma freada brusca.

Outro fator que não permite uma leitura fora de casa são os famosos calhamaços, livros com mais de 600 páginas, que eu faço questão de escolher para colocar na meta do mês. Esses, eu acabo lendo em frações, levando muito mais tempo do que pretendo, além de quase sempre surgir uma desaceleração lá pela metade da obra, devido à ansiedade em terminar e pular para outra história.

Apesar de todos esses empecilhos, nunca saio sem um livro na mochila. Uma das maiores tristezas que pode me ocorrer no dia é de surgir a oportunidade de leitura e perceber que esqueci de sair com alguma obra. Os e-books, dependendo da ocasião e local em que esteja, têm se tornado uma alternativa para vencer esse obstáculo.

O transporte coletivo gera estresse e cansaço. Os livros se tornaram a minha válvula de escape, transformando horas tortuosas em um belo prazer. Convertendo a paisagem dos grandes centros urbanos em mundos fantásticos nos quais eu posso imergir e me desligar do mundo real. A pandemia de Corona vírus vem me privando de retornar ao ritmo de antes, mas, mais do que a minha preocupação com as leituras, está o medo de contrair esta doença. Que dias melhores possam ascender em breve.




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