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A trilha assombrada por cem demônios de Kwaidan, as quatro faces do medo

A obra-prima


O filme “Kwaidan” (1964) de Masaki Kobayashi (1916 – 1996) é, sem dúvida alguma, uma pérola do cinema japonês que merece muito ser apreciada. Kobayashi não poupou esforços para traduzir os contos coletados pelo escritor grego naturalizado japonês Lafcadio Hearn (Koizumi Yakumo) da melhor maneira que pôde. Dois anos antes, havia o diretor produzido Harakiri, que recebeu o Jury’s Prize em Cannes, e repetiu o feito em 1965, quando recebeu o Special Jury’s Prize, além do prêmio de melhor filme estrangeiro da Academy awards.

O filme é uma “tradução” de quatro contos coletados pelo escritor Lafcadio Hearn (cujo livro “Kwaidan: histórias e estudos de fantasmas”, editado pela Pyro Books, está em campanha pela plataforma de financiamento coletivo Catarse) e compilados em uma série de livros com estudos e histórias do Japão. Masaki escolheu a dedo os contos com os quais trabalharia em seu filme. Estes são, a saber, na ordem do filme: “Cabelo Negro”, “A mulher da neve”, “Hoichi, o sem-orelhas” e “Em uma xícara de chá”. Todos as histórias são, para ser breve em minha introdução, o que há de mais puro do horror japonês, e aquele que for minimamente iniciado no mundo do folclore e da cultura yokai (diz-se das assombrações e demônios do folclore japonês) reconhecerá algumas criaturas fantasmagóricas no filme.



Em “Cabelo Negro”, acompanhamos a história de um samurai arruinado que se divorcia de sua esposa para buscar uma vida melhor sozinho; os efeitos da impulsividade de sua juventude trazem à tona as consequências de seus atos. “A Mulher da Neve” é uma típica história de assombração japonesa, e tem como atrativo a atmosfera gélida e soturna, criada pela aparição de um espírito das nevascas. “Hoichi, o sem-orelhas” é uma das mais belas peças do filme; nela conhecemos Hoichi, um monge cego que toca um instrumento chamado biwa; seu talento incomparável, no entanto, chama a atenção e impressiona coisas não-humanas. E, por fim, “Em uma xícara de chá”, uma narrativa à la Jorge Luís Borges, com um tom um tanto ácido e cômico, mostra-nos uma assombração incomum, que torcerá os nós do cérebro de quem contemplá-la.

Kwaidan é um must para aquele que, sobretudo, ama o cinema de horror. Apreciá-lo é também compreender que existem formas muito mais distintas de se causar arrepios do que aquelas praticadas pelos autores canônicos do ocidente, como Poe e Lovecraft. Descobrir esse Japão assombrado e terrível, com um folclore povoado por mil criaturas medonhas e demoníacas, é também entender que existe uma riqueza muito maior que aquela que imaginamos sobre essa cultura milenar.


O Biwa assombrado por cem demônios


A trilha sonora de “Kwaidan” foi composta por Toru Takemitsu (1930 – 1996), talvez um dos maiores compositores de trilhas de todos os tempos. Além de músico e compositor, era também autor e estudioso da estética, tendo publicado 20 livros e composto trilhas para mais de 90 filmes. Sua influência vem, essencialmente, de compositores de música eletroacústica, sendo John Cage sua maior inspiração. Contudo, Takemitsu também empregava elementos da música oriental em suas obras, apesar de estranhamente não gostar da dita “música tradicional”, como ele mesmo revela em seu livro Confronting Silence: Selected Writings.

Takemitsu trabalhou junto de Kobayashi em outros filmes, como Harakiri e Samurai Rebellion, e com o icônico Kurosawa, em diversos filmes.

Mas é em Kwaidan que o emprego da música antiga japonesa, com seus tambores trovejantes, seus “alaúdes” melódicos e místicos (o biwa é uma espécie de alaúde sem trastes), e suas vocalizações narrativas à moda de uma récita ou de uma litania, mostra todo o seu poder. Takemitsu, abusando de todos os elementos possíveis dentro dessa realidade antiga e ainda desconhecida pelo público ocidental, cria a atmosfera perfeita para o filme.

Sutil e quase inaudível, o tema principal de Kwaidan, [https://www.youtube.com/watch?v=hKm_3s6tmWs] é misterioso e nos dá um bom tom do que está por vir. Minimalista, explorando o ruído em equilíbrio com o silêncio, Takemitsu simula uma atmosfera que nos indica cautela e a iminência de algum estranho fenômeno.

O highlight dessa trilha fica mesmo por conta de “Hoichi, the earless”, uma canção onde o biwa (esse alaúde de quatro cordas e sem trastes) é acompanhamento para a voz, que, aos ouvidos ocidentais, pode parecer mais uma récita (sem melodia) que um canto. Esse estilo chama-se Hōgaku (邦楽), símbolo da música tradicional japonesa. Os temas dos Hogaku podem variar, mas geralmente o cantor narra histórias de batalhas e de amores. Seria um equivalente (guardadas as devidas proporções) ao nosso canto trovadoresco, no qual o trovador narra, com seus versos e seu alaúde, histórias de heróis, tragédias e de amores. O tom dessas canções geralmente é melancólico, e no caso de “Hoichi, the earless”, isso fica bem claro, pois mesmo aquele que não tem conhecimento sobre o que está sendo narrado, pode sentir na voz uma tristeza profunda, em um tom de lamentação, de luto.



Hoichi, como dito, é um monge cego muito habilidoso com o biwa. De sua voz era dito que encantava a todos que a ouviam, e que sua habilidade no instrumento era incomparável. Quando Hoichi recebe, em seu templo, uma visita misteriosa que o convence a tocar para um grande mestre e sua corte, ele decide apresentar uma das melhores peças de seu repertório: Heike Monogatari (平家物語  ), ou “a História dos Heike”. Uma antiga passagem da história japonesa que narra a batalha naval sangrenta entre os clãs Taira e Minamoto, pelo controle do Japão no século XII. Os Heike (Clã Taira) foram completamente exterminados durante essa batalha travada em Dan no Ura. Mulheres, homens e crianças, todos morreram fulminados pelas flechas, perfurados e mutilados pelas naginatas (espécie de lança japonesa) e katanas, ou afogados (em sua maioria).

Essa tragédia, não bastasse o horror real, rendeu, posteriormente, uma centena de histórias narrando dos fantasmas dos Heike. Uma delas diz que os Heikegani, espécie de caranguejo, carregam em suas carapaças os rostos furiosos dos guerreiros Heike derrotados em Dan no Ura (essa lenda é narrada por Lafcadio em “Poesia Demoníaca”, publicado junto da campanha de Kwaidan). Outra lenda, essa menos conhecida, conta dos espíritos dos afogados, que se tornaram Funa-Yurei, uma espécie de espírito vingativo que persegue e afunda navios em busca da salvação da própria alma condenada. Conta-se que o grande Benkei, um Sohei (monge guerreiro), afugentou os espíritos dos Heike utilizando somente seu rosário budista.


Por que o Mausoléu recomenda?


O imaginário Ocidental tem grande valor e alcance, de fato… não poderemos nunca apagar suas influências e a grandiosidade, porém desconsiderar a arte Oriental (num geral), mesmo que em um só aspecto, é um erro gravíssimo e, eu diria, de uma estupidez incomensurável.

O folclore japonês é um dos mais ricos que podemos encontrar: o sincretismo de religiões, ritos e mitologias vindas da China e da Índia, combinados à originalidade inconfundível das próprias ilhas, criou um amálgama vasto, mas infelizmente ainda mal explorado. Assistir “Kwaidan”, de Masaki Kobayashi, e ler o livro no qual se inspirou o diretor, é um exercício de expansão de repertório, tanto para aquela ou aquele que está nessa pelo horror, quanto por aquela ou aquele que simplesmente aprecia a arte como algo indispensável para a vida. E não é?



Kwaidan: histórias e estudos de fantasmas, edição luxuosa


A Pyro Books lançou há pouco uma campanha no Catarse para publicar uma edição luxuosa do livro de Lafcadio Hearn que inspirou o filme de Kobayashi, “Kwaidan: histórias e estudos de fantasmas”.

O projeto conta com 17 contos de fantasmas, demônios e assombrações; três estudos de insetos e algumas histórias fantásticas sobre essas criaturas e sua relação com o folclore; dois contos adicionais (“O cabelo negro” e “Em uma xícara de chá”); prefácio crítico; posfácio sobre o filme, assinado pelo especialista em cinema Carlos Primatti; e 11 ilustrações inéditas assinadas pelo artista Zakuro Aoyama. Nas metas estendidas estão incluídos contos extras, como “O menino que desenhava gatos” e “O condutor de cadáveres”.

A Pyro Books oferece diversas modalidades de recompensas, inclusive o e-book “Poesia Demoníaca”, um bestiário de yokais escrito por Lafcadio, que também conta com extras, como uma extensão do bestiário (com mais de dez novas criaturas), lista de filmes de horror japoneses, e recomendação de livros sobre as assombrações das ilhas.






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