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Homo narrans


Em 1984, o pesquisador Walter R. Fisher propôs uma teoria da comunicação humana baseada no conceito Homo Narrans. Tal paradigma surgiu como uma nova perspectiva diante de outras nomenclaturas propostas em diferentes áreas do conhecimento como o Homo Oeconomicus e o Homo Politicus. O termo Homo Narrans considera a primazia da narrativa ao diferenciar o Homo Sapiens de outras espécies do gênero Homo. Em outras palavras, essa proposição poético-antropológica considera o ser humano como inerente contador (e ouvidor) de histórias.

A perspectiva da narrativa aqui é uma metáfora que abrange a experiência humana, como um tipo de interação, um modo de expressão. Se pensarmos no próprio termo interação, ele se estabelece como uma atividade, um tipo de ação mútua, que se dá através do compartilhamento entre dois ou mais indivíduos de forma a estabelecer algum tipo de comunicação. Desse modo, a narração é tida como a base da metáfora da existência humana, e as outras usuais categorias de aspectos da humanidade são vistas como concepções que advém da narração, ao exprimir as escolhas e ações humanas. Essa argumentação propõe o contar e o recontar como o que dá sentido à vida e ao mundo que nos cerca. No recontar, o autor considera a autobiografia, a biografia e a história, enquanto o contar permitiria a argumentação teórica, de maneira que ambas possam ser expressadas de maneiras líricas, a contar a novela, o drama, a poesia. É possível observar o quanto as histórias fazem parte das nossas construções individuais e coletivas, dos símbolos que compõem o nosso imaginário às nossas concepções de sociedade.

Isso me lembra quando vivenciamos alguma situação em conjunto, como ir a um funeral, por exemplo, e cada uma das pessoas que é chamada para dar suas últimas palavras antes de enterrar um ente querido traz lembranças e experiências distintas das demais. Mais ainda, quando alguém se levanta para contar uma história em que outros estavam presentes e alguém se questiona sobre a veracidade das informações. Uma vez durante um arrastão, eu e um grupo de amigos fomos separados por pequenos grupos de assaltantes, e ainda que eu visse parcialmente o que acontecia aos demais, a minha experiência foi pautada na minha visão e audição sobre o ocorrido. O mais interessante dessa experiência foi perceber o quanto a mesma narrativa foi vivenciada e contada de m

aneiras diferentes. Houve quem contasse sobre o assalto relatando aquilo que aconteceu com os outros “pude ver os assaltantes tirando os tênis de alguém do outro lado da rua”, outros que demarcavam especialmente o espaço e tempo dos acontecimentos “era umas quatro da manhã, estávamos na rua tal, 15 minutos depois aconteceu isso”, e até mesmo o fim do episódio tinha diferentes resoluções, pois metade do grupo se encaminhou para a zona norte e a outra para zona sul. Num pequeno acontecimento vivenciado temos diferentes histórias, narradores, conflitos e resoluções. De quantas maneiras esse mesmo assalto não foi contado para outros amigos, familiares e conhecidos?

É possível enxergar a potencialidade de histórias que flutuam ao nosso redor. Além disso, mesmo agora, enquanto você lê esta coluna, aquela que vos escreve estará fazendo outra coisa, talvez lendo um livro ou maratonando uma série, enquanto do outro lado do mundo alguém estará prestes a se casar ou acionar o gatilho. Toda essa contingência caótica de vivências que são potenciais narrativas estão aí para serem organizadas e ficcionalizadas. Para finalizar, deixo este poema, lembrando desse ofício maldito e existencial que é a escrita:


AUTOPSICOGRAFIA


O poeta é um fingidor

Finge tão completamente


Que chega a fingir que é dor


A dor que deveras sente.



E os que leem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,


Não as duas que ele teve,


Mas só a que eles não têm.



E assim nas calhas de roda


Gira, a entreter a razão,


Esse comboio de corda


Que se chama coração.


Fernando Pessoa





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