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A SINESTESIA DE HARLAN ELLISON: NÃO TENHO BOCA E PRECISO GRITAR


Neste post do blog da Editora Diário Macabro, devo dizer, venho no intento de fazer justiça. Ao menos o quanto eu puder.

Harlan Ellison é um dos maiores nomes da literatura fantástica no exterior, tido como um dos pais da era New Wave da ficção científica, ganhador de vários prêmios Hugo, Nebula, Bram Stoker. Então eu pergunto: como um sujeito tão incrível assim não tem nada publicado no Brasil? (Quase nada, na verdade).

Tal foi o meu espanto ao ler o conto intitulado I Have No Mouth, and I Must Scream, que pesquisei tudo acerca do autor: sua vida, o que gostava de fazer, o que pretendia com sua escrita. Cheguei a várias conclusões, todas absurdas, me deixando inconformado com sua inacessibilidade.



Uma das únicas publicações que tivemos em português do Brasil de sua obra foi a do conto “Não tenho boca e preciso gritar”, publicado na coletânea Máquinas que pensam, da Editora L&PM. A edição foi posteriormente dividida em três volumes que hoje se chamam Histórias de robôs, mas sem a presença de Harlan Ellison (bem, não tenho certeza se está ausente, pois não possuo o volume 3 da coleção, mas não está listado nos contos que encontraríamos se adquirirmos a trilogia). A outra é uma quadrinização do episódio “A cidade à beira da eternidade”, um dos episódios mais famosos da série clássica de Star Trek, cujo roteiro foi Harlan Ellison quem escreveu. Está publicado no Brasil pela Mythos Editora.

Harlan Ellison, enquanto vivo, foi um dos homens de temperamento mais cáustico que existiu no mercado editorial americano. Tinha atitudes transgressoras, apontava dedos no rosto das pessoas e constantemente brigava com fãs e editores. No entanto, há depoimentos como, por exemplo, o de Neil Gaiman, que diz que Ellison é um de seus maiores influenciadores. No prefácio da coletânea The Beast that Shouted Love at the Heart of the World (edição que se encontra na Amazon), Gaiman nos conta essa história, sobre como a leitura do livro Shatterday foi um dos estopins para começar a criar as suas próprias histórias. E, sinceramente, entendo Gaiman muito bem. Há algo de mágico na escrita do Harlan Ellison: essa sinestesia, que te envolve e te pega pelo colarinho, chacoalhando e te fazendo ver tudo, sentir tudo, escutar tudo, mesmo sendo desagradável. Ellison, em várias entrevistas, dizia apenas retratar a realidade, e, devo dizer, ele retrata isso muito bem. É o seu charme. Era a sua maior habilidade.

Em “Não tenho boca e não preciso gritar”, vemos um grupo de cinco pessoas num futuro pós-apocalíptico, sobrevivendo às torturas eternas da máquina senciente, AM, que deles zomba e os odeia. A máquina se diverte às custas dos penitentes, sempre criando mais formas de maltratá-los, machucá-los e fazê-los sofrer. Como um conto de ficção científica, devo dizer, “Não tenho boca e preciso gritar” humilha uma quantidade gigantesca de contos de horror que já li por aí. Esse foi um texto escrito na época da Guerra Fria, obviamente como uma crítica alegórica para dizer o quanto o conflito era uma idiotice; um mau uso do tempo dos governantes mundiais, pois se não parassem de arrumar picuinhas uns com os outros, era provável que acabassem matando o planeta inteiro no processo.

A história é narrada em primeira pessoa, por Ted, um dos cinco penitentes. Isso faz com que você, leitor ou leitora, entre em sua pele e observe os cenários, sinta os odores e tenha as sensações que ele teria. É uma situação tão absurda, tão alegórica, que chega a quase ser mentira. O objetivo da história — pelo que Ted nos conta —, é simplesmente sobreviver. Eles sentem fome, muita fome. Estão há meses sem se alimentar, mas não morrem, a máquina não permite que morram. AM quer vê-los sofrer pela eternidade, fazendo-os sonhar em ter a mais parca das refeições.

Tudo em “Não tenho boca e preciso gritar” é muito real, intenso, visceral. Sentir esse horror, entender o porquê AM existe e o porquê de fazer o que faz é o charme da história. Nenhum detalhe passa em branco. Tudo é computado, anotado, sentido. A sinestesia é perfeita!

O conto aborda tantos temas, tantas reflexões em meio à podridão e à violência, que citá-los não seria nem um spoiler, mas com certeza poderia prejudicar sua experiência de leitura. O ideal seria entrar nessa história de cabeça, sem saber de nada — então, assim como eu, você, leitor ou leitora, mergulharia num abismo de agonia, horror e desesperança, acreditando que não há como piorar, embora sempre piore. E quando você acha que acabou, advinha qual é a resposta?



Posso dizer que influenciei a escritora Úrsula Antunes, da coluna Entre Linhas daqui do blog, a ler “Não tenho boca e preciso gritar”. E como me era esperado, ela gostou muito, inclusive citou o quanto a sinestesia na escrita de Harlan Ellison é incrível. Foi a partir desse comentário que tive o clique na minha cabeça para fazer este post.

Portanto, como tenho boca e posso gritar, direi:

— EDITORAS BRASILEIRAS, PELO AMOR DE DEUS, PUBLIQUEM ESSE CARA EM PORTUGUÊS! ESTÃO ESPERANDO O QUÊ?

(Perdão pela piada ruim).

Até a próxima.




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