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duplo como recurso narrativo


Grande parte das narrativas de terror conta com a figura do mocinho, o herói, o sobrevivente, e o sua nêmese, o monstro, maníaco, vilão. Com certeza, enquanto você lia essas linhas, pensou em inúmeros exemplos de tramas com essa estrutura. Mas eu gostaria de falar das outras histórias, nas quais esses dois extremos se encontram, para a surpresa e deleite dos leitores: a deliciosa figura dos “duplos”.

Do clássico “William Wilson” de Edgar Allan Poe, ao Outsider do Stephen King, sem deixar de fora o meu favorito “O papel de parede amarelo” da Charlotte Perkins Gilman, são inúmeras as histórias que trazem esse elemento e por um nobre motivo: elas vão além do medo, despertando no leitor emoções como angústia, desamparo, além de um certo limite entre o real e o imaginário, a loucura e a razão. Afinal, a crença em criaturas que podem roubar nossa identidade ou de que haja alguém “quase” idêntico a nós são tão antigas quanto a ideia de identidade e individualidade. O terror fica por conta da descoberta de uma cópia sua, com limites desconhecidos para você, e que quase sempre maléficas.



Podemos nos deter nesse ponto e esmiuçar suas nuanças, usando os autores citados acima. Em “William Wilson”, nós temos a figura do duplo que rouba cenas da vida do outro, sem nunca deixar claro o seu objetivo, criando uma paranoia crescente que só pode ser resolvida pela morte de um deles. Em Outsider, King nos diz logo de saída que seu romance teve como inspiração o conto de Poe, mas ele trará o duplo em outra roupagem. Vemos uma criatura mítica que assume feições alheias para cometer atos hediondos, provocando o caos e se alimentando da dor infligida aos demais humanos.

Por último, e não menos importante, meu queridinho o conto de Perkins, no qual o duplo será construído lentamente e terá seu desfecho em um único ambiente. A história é narrada em um diário, e há uma narradora, ela mesma, duplicada em sua loucura, loucura essa nunca escondida de nós. Dessa forma temos um dos narradores menos confiáveis e mais sinceros da literatura. Nessa narrativa também encontramos uma particularidade apavorante: somos introduzidos a um duplo que habita o mesmo corpo da protagonista, encontrando sua unidade no clímax, com a loucura aceita e devidamente instalada. O duplo ganha o controle e, para meu mais absoluto horror, essa vitória soa para mim como uma liberdade, uma felicidade, como se essa fosse a única e melhor saída para as partes envolvidas.

Assim podemos ver três formas diferentes nas quais os duplos foram trazidos para a literatura de terror, e ainda haveria outras tantas. Uma das riquezas desse elemento é sua habilidade de ser forjado a partir das mais variadas premissas e ainda manter sua capacidade de gerar incômodo.

É inevitável para mim pensar nessas questões trazidas, pelo sentindo que o duplo desperta, sem pensar no texto “O estranho” de Freud, no qual ele descreve o espanto e temor que sentiu ao ver um velho desgrenhado, encarando-o em seu vagão-leito numa de suas viagens, para então se reconhecer naquela imagem: não passava do próprio Freud refletido no espelho. Essa experiência insólita o ajudará a formular o conceito de Uncheimliche, impossível de traduzirmos com exatidão, não só devido às barreiras linguísticas, mas também pela extensão do conceito. Uma delas poderia ser chamada de “o estranho familiar” e está me interessa no momento, pois evoca justamente a questão do duplo. Se me desperta estranheza, desconforto, temor é justamente por ser a mim familiar. O medo de si.

Um bom lugar para se ler sobre o insólito que surge como contraponto ao familiar é no Longe de Casa, a HQ da Diário Macabro, na qual situações estranhas e incômodas são encontradas distante do que nos é mais familiar e conhecido: nossa residência, local de pouso e abrigo.

Quando Lovecraft diz que nada nos provoca mais medo do que o desconhecido, ele está certo. Talvez só valesse complementar: nada é tão desconhecido quanto o que habita em nós.


1* Para ler histórias do desconhecido como elemento de horror, sugiro a obra Lovecraft: Re-imaginado, da Editora Diário Macabro. Nessa antologia, autores nacionais irão trabalhar releituras dos contos originais de Lovecraft em uma homenagem ao autor.





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