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O ÚLTIMO SOBREVIVENTE EM BATTLE ROYALE


Lembro que quando eu tinha 12 ou 13 anos de idade, um amigo meu, talvez o mais antigo que eu tenha ainda hoje (abraço, Assis), apareceu segurando um mangá e me disse: “Cara, lê isso aqui, vai explodir a tua cabeça”. E explodiu. Do início ao fim, eu fui fisgado pelo suspense, pelo terror e pela agonia dos personagens que se viam em um jogo terrível de sobrevivência.

Imagine que você está indo a um passeio escolar com seus colegas de classe, feliz e animado, então, de repente, vocês são dopados e jogados numa ilha deserta. Todos recebem uma mochila com mantimentos aleatórios. Dentro da mochila pode haver uma metralhadora, pão e água. Ou, se o azar for grande, um garfo, um isqueiro e uma escova de dentes. Lá, você terá que matar seus amigos, a pessoa que você ama, aquele sujeito que sentou na carteira ao lado por diversos anos da sua vida escolar. Não há como fugir, não há como fazer motim. Se tentar escapar da ilha, uma coleira no seu pescoço detonará. Se passar uma hora sem que qualquer morte ocorra entre os alunos, uma coleira explodirá aleatoriamente, podendo ser assim você o azarado a morrer. E na histeria, no pavor de intuir quem de seus amigos está jogando de fato o jogo, acaba-se criando uma rede de intrigas e desconfianças. Também aliados. Rá! Veja só: “aliados”. No final de tudo, apenas uma poderá sobreviver!


Battle Royale foi uma das principais obras que definiu quem eu sou e o que eu gosto hoje em dia, tal como Gantz. É horror e ficção científica na sua melhor síntese. Lembro de ter consumido toda a história em mangá, no entanto, não tão recentemente assim, descobri que a Globo Livros estava lançando um livro com o mesmo título. Intrigado, pesquisei no tio Google sobre a história e descobri que o mangá era uma adaptação do romance. E é a adaptação mais fiel que eu já li. O livro é excelente, rápido, com cenas tensas e igualmente viscerais!

O protagonista da história é Shuya Nanahara, um rapaz órfão que tem o sonho de ser um rockstar. Mas como o rock é banido na República da Grande Ásia Oriental (um Japão fictício e muito semelhante a alguns regimes ditatoriais que existem no nosso mundo real), ele vive no mundo da fantasia. E diferente de muitos personagens protagonistas japoneses, que são bobões ou sem talento, Shuya é o crush das meninas da turma dele. E além de ser muito bom tocando guitarra, ele também é um dos astros do time de beisebol da escola. Isso tudo faz dele um cara muito popular. Você, como observador, se importa de verdade com ele. Ele tem carisma, é altruísta; é o verdadeiro good guy. Não tem como não torcer por Shuya.

Também temos vilões excelentes aqui; vilões em dois tipos:

O primeiro é Sakamoto Kinpachi, o homem que trabalha para o governo e que sequestrou a turma para levá-los até a ilha. Ele trabalha para o império com satisfação, cometendo atos terríveis sem nenhum peso na consciência, usando o “patriotismo” para se justificar. “Tudo o que faço é por minha nação”.

O segundo é Kazuo Kiriyama. Existe um termo na cultura japonesa para pessoas como ele, que é: Tensai. Ele é um gênio. Um rapaz prodigioso. Tudo o que ele faz, ou tenta fazer, torna-se perfeito. Portanto, quando ele decide que vai sobreviver ao jogo — ao Battle Royale —, ele utiliza todas as técnicas e artimanhas possíveis, seja o que for, para traçar a sua vitória. Não há como não ficar tenso sempre que ele aparece na história, porque você sabe que alguém vai morrer.



A trama se confunde muito com a de outro livro, Jogos Vorazes, que traz uma proposta semelhante. Mas confie em mim quando digo que, por mais que se pareçam, são coisas completamente diferentes. Battle Royale é história de desgraceira, carniça pura, o que torna o livro adulto, com violência, sexo explícito, mutilação e tudo o que se possa imaginar.

Por mais que Battle Royale seja mais velho que Jogos Vorazes, a autora da saga, Suzanne Collins, admite não ter tido conhecimento de Battle Royale à época do lançamento do seu livro, ou seja, são duas pessoas em dois pontos distintos do mundo que tiveram a mesma ideia. Mas aqui, nesse caso, o que vale é a jornada. E a jornada de Battle Royale fez quem eu sou hoje.

Koushun Takami, com sua mente perturbada e absurdamente genial, mudou a vida de um pequeno escritor porto-alegrense para sempre.

Obrigado, mestre.




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