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As litanias do Anjo Mórbido:quando o metal extremo abraça Lovecraft

[Cautela! Esta matéria contém linguagem forte, referindo-se à violência e religião]


Nunca é de bom tom que o redator fique dando opiniões pessoais ou envolvendo fatores afetivos no conteúdo de suas matérias. Mas quando soube que este ano comemoramos 130 anos de Lovecraft... bem, não pude deixar de pensar em uma das bandas que, na visão do colunista, foi a banda que melhor explorou os mitos de Cthullhu na música e, claro, já que se falou em “afetividade”, é também seu grupo de death metal favorito. Nessa matéria especial de 130 anos de Lovecraft, falaremos da influência do autor na música da banda norte-americana Morbid Angel.

O Anjo Mórbido

Oriunda da cidade de Tampa, Florida, berço desse que é um dos estilos mais extremos do metal, Morbid Angel lançou nove álbuns de estúdio e dezenas de singles, álbuns ao vivo e compilações. Um ícone do death metal, a combinação do vocal grosseiro e grave — mas muito definido — de David Vincent (vocalista durante a época clássica), as guitarras caóticas e atonais de Trey Azagtoth, e a bateria agressiva de Pete Sandoval (inventor do Blast-beat), fez escola e ainda é referência para bandas mais novas como Krisiun, Sepultura, Behemoth e Opeth.

Aqui me restringirei a falar dos três primeiros álbuns: Altars of Madness, de 1989; Blessed are the Sick, de 1991, e Covenant, de 1993. Eles configuram a época que podemos chamar de Clássica (quando a banda era integrada pelos membros supracitados e o segundo guitarrista, Richard Brunelle), pois estes álbuns contêm referências diretas, e por vezes indiretas, à obra de Lovecraft, esse autor que conseguiu atravessar, com suas aberrações estelares e seus deuses antiéticos e cínicos, as barreiras da literatura de horror.

As litanias Lovecraftianas na música do Anjo Mórbido

O album Altars of Madness (1989) é uma pérola para quem gosta do gênero extremo, e uma ótima peça introdutória para quem ainda não conhece. Cheio de faixas poderosas, riffs memoráveis e linhas vocais de causarem medo, esse disco é, na opinião do redator, o mais clássico da banda. Mas vamos adiante com as influências ctônicas do mestre do horror na música desses cultistas fanáticos.



Logo na primeira faixa, Immortal Rites, temos, no terceiro e quarto versos, as poderosas linhas “Call upon immortals/ Call upon the oldest one to intercede” (Chamando os imortais/ Chamando o Antigo Primordial para que ele interceda)[1]. E quem seriam esses Imortais, e o Antigo Primordial? Estão falando, aí, claramente das castas dos deuses antigos criados por Lovecraft; o tom geral da letra dá-nos a entender que um suplicante adorador dessas forças do caos está implorando para ser arrebatado ou... transformado, talvez? Quem sabe dos desígnios dos Antigos?

Em Lord of All Fevers & Plague, encontramos novamente a figura do cultista suplicante, implorando para que alguma divindade vinda de outro plano o possua, destrua seus inimigos, ou simplesmente domine tudo de forma deliberada. Os primeiros versos evocam não uma criatura de Lovecraft, mas um deus mesopotâmio, fazendo, inclusive, uma evocação que, não raramente, encontramos na obra do morador mais ilustre de Providence: “Ninnghizhidda — open my eyes/ Ninnghizhidda — hear my cries/ Ia iak sakkakh iak sakkakth/ Ia shaxul” ( Ninnghizhidda — abra meus olhos/ Ninnghizhidda — ouça meus chamados). O nome impronunciável, Ninnghizhidda, pertence a uma deidade mesopotâmia do submundo, e os gritos de evocação do cultista suplicante nos remetem aos horripilantes uivos dos adoradores do deus de cabeça bulbosa: “IA! IA! CTHULLHU FHTAGN!”. Mais adiante na canção, o nome impronunciável é citado com guturais dignos: “Ia Kingu ia Cthulu ia Azbul. Ia Azabua!”

Passando para o album Blessed are the Sick (1991), deparamo-nos com os seguintes versos na canção Unholy Blasphemies: “Yog sothoth evil one/ Come forth and taste the blood /Infant entrails/ Are hung upon the twisted cross” (Yog sothoth, o cruel/ Vinde e provai do sangue/ vísceras de infantes/ pendem da cruz invertida). Yog sothoth, o deus atemporal que é chave e portão, e que está presente em “O horror de Dunwich”, aqui é evocado como um devorador de oferendas, no mínimo, revoltantemente blasfemas. O título da faixa, Ancient Ones, dispensa comentários: essa é uma das referências mais diretas ao panteão aberrante de Lovecraft. Os versos de abertura são: “Locked deep beyond the gate/ Lost within the stars/ Realm of the ancient ones/ Malignant ones” (Preso para muito além do portal/ Perdido entre as estrelas/ Reino dos Antigos/ Os Malignos). Mais adiante, há um sincretismo interessante de deuses sumérios e lovecraftianos, nos seguintes versos: “Come forth ancient ones, Tiamat Kutulu/ Rise, greet the cursed with your wrath” (Aproximai-vos, Antigos, Tiamat Kutulu/ Erga-se, receba os amaldiçoados com sua ira”. E mais à frente em: “A scorn from the Absu/ Kutulu snaps his jaws” (Um escárnio de Absu, Kutulu fecha suas mandíbulas). Esse sincretismo não é novidade trazida pela banda, Lovecraft fez isso em larga escala, e são numerosos os contos em que cantos em sumério — como em “Chamado de Cthullhu” e “O caso de C. D. Ward” — misturam-se aos nomes dos Antigos.

Covenant é um album mais compassado, de ritmo mais lento, mas não deixa de ser tão pesado quanto seus antecessores. As letras ficam mais densas, e param de apelar para um gore puro e visual, tocando em velhos assuntos, mas de forma mais polida e bem trabalhada. Em Angel of Disease, temos uma evocação direta ao nome do terrível bode negro, mãe de mil crias: “Angel of disease, one who shuns the light/ Shub Niggurath, goat with one thousand young” (Anjo da doença, aquele que abomina a luz, Shub Niggurath, bode das mil crias). A letra dessa canção é uma litania sombria, um canto religioso ao bode negro que deforma a vida e cujo poder biogenético é tão fértil, que talvez nem o próprio deus tenha controle sobre sua prole aberrante. Os versos finais são memoráveis, mais uma vez evocando a figura do cultista fanático e submisso, o canal para o triunfo do acesso dos Antigos ao nosso mundo físico: “Morbid priest calling forth/ Abominations of the sky/ Kutulu meets in the void/ Ancient Ones rule once more” (O sacerdote mórbido evoca, abominações vindas do céu, Kutulu encontra-se no vazio, Os Antigos reinam novamente.)


Essas são somente algumas das centenas de referências que minhas pesquisas revelaram; poderia escrever exaustivamente sobre o tema, uma vez que Morbid Angel é uma dessas bandas que não esconde a fonte de sua inspiração, mas deixarei que leitor explore sozinho esse mundo abominável. O próprio guitarrista adotou o nome do Sultão-Demônio, Azagthoth, e isso não nos deixa dúvidas de que, além de excelentes músicos, os membros do Morbid Angel são verdadeiros cultistas do infame e blasfemo H.P. Lovecraft e de suas caóticas criações.

Links para acessar as canções citadas:

Immortal Rites: https://www.youtube.com/watch?v=QJ7y-MYIgKs

Lord of all fevers and plague: https://www.youtube.com/watch?v=WIFQAouxaJY

Unholy Blasphemies: https://www.youtube.com/watch?v=a-vQPv5jmSM

Ancient Ones: https://www.youtube.com/watch?v=eYACQcg3_Fg

Angel of Disease: https://www.youtube.com/watch?v=RLOVMbGv23U






[1] As traduções feitas pelo redator são livres, e tomam certa licença poética para tornar mais clara a compreensão dos sentidos de cada verso.

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