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Poe e Doom Metal se encontram – A palidez assombrosa em AHAB


As obras de Edgar Allan Poe sempre foram tomadas como fonte de inspiração, direta ou indireta, por diversas áreas que a Arte engloba. Nos cinemas temos as inúmeras adaptações da Hammer movies, sempre contando com a participação ilustre de Vincen Price, Karloff e Christopher Lee. Sem sair do mundo da leitura, podemos encontrar diversas adaptações para quadrinhos, releituras de seus contos e até poemas; e na música, algumas bandas, principalmente, eu diria, as de heavy metal e seus subgêneros, não escondem sua preferência pelas narrativas de Poe que, pelo teor de alguns de seus temas, podem ser facilmente inseridas no mundo da música pesada. A matéria de hoje é sobre o disco “The Giant”, da banda alemã de Nautical Doom Metal, AHAB.



Os tripulantes do navio naufragado



O grupo alemão, fundado em 2004, surgiu como uma maré faminta que engoliu o gênero conhecido como Doom metal (cuja origem pode ser traçada até o primeiro álbum da banda Black Sabbath), e inaugurou um subgênero (do subgênero) apelidado carinhosamente de Nautical Doom Metal, ou, Doom Metal Náutico. O ritmo arrastado, lento, os instrumentos afinados até dois ou três tons abaixo (o que torna tudo mais grave, profundo e às vezes até mesmo indiscernível), e os vocais, que oscilam entre o melodioso e o gutural, são marcas registradas do gênero; AHAB não foge à regra, mas tem um porém…

Com inspiração diretamente retirada de narrativas (verídicas ou imaginadas) náuticas catastróficas, AHAB, que para si adotou o nome do hediondo capitão do navio baleeiro Pequod, de Moby Dick, o grupo alemão construiu uma discografia única, e talvez seja (salvo ledo engano) a única do gênero Náutico dentro do metal, ou, pelo menos, a única cuja discografia trata somente desse assunto.

Mas por mais restrito que isso possa parecer — o que prova a ignorância geral sobre o temível e assombroso tema das tragédias náuticas —, AHAB conseguiu explorar muitas narrativas incríveis, como o naufrágio do Essex, uma das inspirações de Melville a escrever Moby Dick, e, claro, o assunto dessa matéria, a novela curta “A narrativa de Arthur Gordon Pym”, de Edgar A. Poe, uma obra pouco lida e pouco traduzida no Brasil e que, na opinião deste que vos escreve, é a melhor das páginas escritas pelo corvo de Boston.


O gigante pálido


O álbum “The Giant” (2012) é considerado a obra-prima da banda. Trata-se de um álbum conceitual (outra característica da banda, que ocorre em todos os álbuns) diretamente inspirado no conto mais longo de Edgar Allan Poe. “A Narrativa de Arthur Gordon Pym” é contada por um homem que coletou a história do próprio Arthur, que à época dos acontecimentos narrados era somente um garoto, filho de uma família abastada, e com um amor incondicional por navegar em mar aberto. Quando seu melhor amigo consegue ingresso como tripulante em um navio, Arthur arquiteta um plano para entrar como clandestino nesse mesmo navio, e é ajudado por seu amigo e por seu cão. Uma série de acontecimentos terríveis, aos quais um navio sempre está sujeito a sofrer, como motins, naufrágios, tempestades et alli, transforma aquela aventura juvenil em um perigoso confronto implacável contra a morte e suas diversas faces. A fome, a sede, o medo, a selvageria da vida marinha, o frio… esses são somente alguns elementos explorados habilmente por Poe, e que fazem dessa narrativa um livro que merece ser lido tanto quanto seus contos mais conhecidos.


A banda AHAB explora esse “mito” em “The Giant”, fazendo uso de elementos próprios do Doom metal, como os vocais arrastados e langorosos, as guitarras e baixo afinados tons abaixo e a bateria “lenta-quase-parando”, tudo isso para criar uma atmosfera melancólica, gélida e paralisante. As letras fazem raras menções a acontecimentos mais concretos da narrativa, e o álbum parece estar centrado quase totalmente nos sentimentos de Arthur, que sofre, ao longo de toda a narrativa (SPOILER) pela perda dos amigos, e também pelas agruras pelas quais passou, as quais o fizeram cometer atos terríveis e repugnantes. A canção “Further South”, que abre o álbum, inicia-se com os seguintes versos “I am Arthur Gordon Pym, Or is he me? Why is everything só grim? Distress all i see.” (Eu sou A.G. Pym, ou ele sou eu? Por que é tudo tão triste? Angústia é tudo o que vejo).

Esse trecho já cria uma marcação cronológica distante dos primeiros capítulos do livro, em que Pym ainda parece animado, contando de suas experiências náuticas durante a adolescência, e dos meios astutos pelos quais consegue embarcar clandestinamente no navio que irá levá-lo até seu destino implacável. A voz melódica de Daniel Droste encaixa-se perfeitamente, entoando o monólogo langoroso do narrador perdido em alto-mar. Um embate interno é mostrado através de versos como “Whiter should i flee from myself? Futher down, further down, further South?!” (Para onde devo fugir de mim mesmo? Mais abaixo, mais abaixo, mais para o Sul?). O narrador do conto de Poe, talvez por não ser o próprio Arthur, não deixa isso muito claro; no fim, acaba sendo um relato, como o próprio título revela, e apesar do teor intimista de alguns trechos, em que Arthur revela as suas angústias e medos, qualquer relação com alguma apatia, ou crise, que tenha lhe levado a querer distanciar-se da terra-firme, como uma forma de livrar-se de si mesmo, não é claramente exposta. Cabe ao leitor analisar através de suas próprias chaves de leitura o que ele acha disso.

A segunda faixa “Aeons Elapse”, dá continuidade a esse embate interno de Arthur. Os versos iniciais, profundamente melancólicos e intimistas, nos convidam a conhecer um pouco mais desse confronto. “Strangely confused in my mind, Aeons elapsed in a blink of an eye, Slumber of utterly ravenous kind,Waters of forgetfulness: by and by …” (Estranhamente confuso em minha mente, Eras passaram-se num piscar de olhos, um entorpecimento do tipo mais nocivo, águas do esquecimento: fluem, fluem…) e os versos seguintes, desdobrando-se em uma voz mais gutural e ríspida: “Vast desire to drift off to sleep, Yet trembling at the thought of it” (Vasto desejo de cair no sono, ainda que trema diante dessa ideia). Essa é uma referência indireta a um trecho em que Arthur revela que o sofrimento após a destruição do navio, causada por uma tempestade durante o motim, levou-o a tomar as mais extremas decisões para que pudesse sobreviver. Essas ações teriam-no colocado contra si mesmo, e essa ideia de “adormecer para sempre em um sono profundo” é uma clara metáfora que descreve o desejo de morrer quando diante de um desamparo incorrigível.


Em “Deliverance (Shouting at the dead)”, é descrita uma das cenas mais aterrorizantes da narrativa, que não será aqui revelada para preservar a surpresa daqueles que ainda não leram a obra.

Talvez a canção mais triste e lamuriosa do álbum seja “Antartica, the Polymorphess”, cuja tradução poderia ser algo como “Antártica, a Polimórfica”, id est, aquela que muda de forma constantemente, que não tem forma definida, referindo-se diretamente à característica imprevisível das formações das geleiras. Os versos seguintes descrevem com uma beleza poética o que Arthur viu quando, após semanas à deriva, deparou-se com esse inferno branco: “Antartica the Polymorphess, Plays her game of bloody dice, She is só ragged and broker, Yet shatteringly adorable. Many words have been spoken, Her ways purely impassible.” (Antártica, a Polimórfica, joga seu maldito jogo de dados. Ela é tão quebrada e fragmentada, no entanto é tão adorável. Muito sobre ela foi dito, seus caminhos completamente intransitáveis). A intransitabilidade daquela massa branca de gelo é um ponto importante na narrativa de Poe. Discorrer mais abertamente sobre esse assunto aqui certamente esmagaria a experiência de alguns leitores, portanto me restringirei a dizer que, nessa obra de Poe, o branco, o pálido, o claro, é, em substituto da escuridão e do negror, como é visto na maioria esmagadora de contos de horror, o elemento que causa medo, terror, e sublimação. A aparição fantasmagórica (e metafórica, de acordo com alguns críticos), que ocorre em certa parte da narrativa, concretiza essa ideia.

Em nome desse conto fantástico, e ainda pouco conhecido, é esperado que essa matéria atice a curiosidade dos leitores, e que estes busquem conhecer a obra, que recebeu edições da L&PM e também da extinta Cosac Naify.





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