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A GARRA CINZENTA: O primeiro personagem brasileiro de terror em quadrinhos


Peço licença pra fazer uma pergunta. Você consegue adivinhar qual foi a primeiro quadrinho de terror brasileiro? Vou ser bonzinho e dar algumas pistas.

Vampiros? Lobisomens? Casas mal-assombradas? Fantasmas? Bruxas? Demônios? Bicho-papão? Mula-sem-cabeça? Se você apontar qualquer uma dessas opções, devo dizer que a resposta passou um pouco longe. Claro, é inegável que a origem pulp das histórias de mistério policial e dos contos de influência gótica no Brasil podem apontar para a origem da formação desse gênero nas HQs, sem contar com o vasto folclore, mitos e lendas. E, de certa forma, essas influências podem ter conduzido para a criação de “Garra Cinzenta”. A obra é considerada como a precursora dos quadrinhos de terror brasileiros.

Publicada como suplemento de “A Gazetinha”, entre 1937 e 1939, a história de cem capítulos (cada capítulo era uma página da narrativa), criada por Francisco Armond e desenhada por Renato Silva, é apontada como uma abertura para o gênero de horror nas HQs tupiniquins. A trama é caracterizada pela mescla entre o policial, o noir, a fantasia e a ficção científica, pelo seu enredo cheio de monstros, múmias, profanações de túmulos e citações à vida após a morte. No curioso universo do personagem, circula não apenas a origem do horror não só gênero popular como também uma combinação de elementos temáticos da tradição pulp.


Vale lembrar que nas histórias do anti-herói Garra Cinzenta, transparece a imagem do cientista louco, estereotípico da ficção científica, e suas mirabolantes experiências “a lá Josef Mengele”.

As histórias de mistério policial eram contempladas por tramas marcadas pela ação, com um nível de violência bastante elevado para a época, diga-se de passagem. Ele é uma espécie de gênio criminoso que, utilizando uma máscara de caveira, apavora uma cidade sem nome definido. Sua marca registrada são cartas com a imagem de uma garra, que deixa para suas infelizes vítimas, além de utilizar equipamentos científicos avançados para a época, como plataformas elétricas, pistolas de ar comprimido e até um modelo de televisão (numa época em que ainda não existia no Brasil). Além disso, conta com dois ajudantes: um robô gigante e a Dama de Negro. Seu principal rival era o Capitão Higgs, que fazia as investigações na busca pelo vilão.


Embora hoje seja pouco conhecido pelo público, o personagem fez muito sucesso, não apenas aqui no Brasil, mas também no México, na Bélgica e na França. Um clássico dos quadrinhos nacionais de terror (e, de certa forma, também de super-heróis) que merece ser conhecido, por estar na vanguarda de dois gêneros de HQ que sempre foram admirados pelos brasileiros.

Um fato curioso que só recentemente veio à tona foi a revelação de que Francisco Armond, o escritor e criador do personagem, nunca existiu. Na verdade, era o pseudônimo da jornalista e poeta Helena Ferraz de Abreu, que dirigia, com o marido, a Livraria Civilização, e os jornais Gazeta de São Paulo e Correio Universal no Rio de Janeiro. A descoberta só aconteceu por conta de uma pesquisa realizada pelo jornalista Sérgio Augusto (embora a autora tenha negado ter dito algo a respeito).

Suspeita-se de que ela tenha usado pseudônimos que se tornaram públicos, como Álvaro Armando — semelhante a Francisco Armond —, nunca tendo admitido a autoria da série devido ao fato de haver preconceito contra quadrinhos e autoras mulheres. Surpresos? Infelizmente não. Se hoje ainda temos tantos casos do tipo, imagine como era décadas atrás.

Em 2011, a Editora Conrad publicou uma edição encadernada da série, desenhada por Renato Silva, hoje bem difícil de achar, mas nada que uma boa busca em sebos virtuais possa resolver, ou até uma possível reimpressão da obra.



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