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À beira da morte, o recomeço

Eis que no texto inaugural dessa coluna eu trago um questionamento: músicas contam histórias? Sem nem pensar muito, eu diria que quase sempre sim. Se não trazem a narrativa na letra ou na melodia, ela poderá ser inserida pelo próprio ouvinte no ato do play. Para intensificar esse ponto, trago um relato de uma conversa que tive com um amigo sobre um dos meus álbuns preferidos de todos os tempos, o Temple of Shadows, da banda brasileira Angra.




Meu amigo, com gostos musicais relativamente parecidos com os meus, admitia que esse disco era bom, mas não entendia o motivo de eu considerar a peça uma obra-prima. Então resolvi esmiuçar toda a narrativa. Trata-se de um álbum conceitual, com uma história que conduz, de música em música, o destino do personagem.

O herói é um cavaleiro que parte para as Cruzadas em defesa da Igreja. Conforme sua jornada avança, ele é constantemente tentado por anjos e demônios, e se depara com profecias, carnificinas e tragédias. Tudo isso faz com que ele constantemente questione os propósitos aos quais ele serve.

Tudo é contínuo e bem explicado por uma espécie de recordatório que antecede cada uma das músicas, além do clima construído com os arranjos e composições. Batalhas são estruturadas com riffs poderosos e solos rápidos, enquanto as tragédias são compostas por passagens sombrias e melancólicas.

Ao fim do meu argumento, eu ainda expliquei que, além das melodias, letras e trechos entre as canções, o álbum ainda trazia em plena consonância cores e ilustrações, bem como trechos bíblicos que servem como uma espécie de referencial teórico, e que isso enriquecia a experiência do ouvinte. O meu amigo, que nunca tinha parado para prestar atenção no encarte ou nas letras, foi obrigado a concordar, muito embora ele não soubesse nem que o álbum tinha um conceito motriz.

É claro que, apesar de todas as ocorrências sobrenaturais na obra, como anjos, demônios ou visões proféticas, o disco não traz uma narrativa de horror — e aproveito para frisar que não é esse o clima do disco —, mas enquanto eu pensava sobre o desfecho da obra, quando nosso protagonista está nos braços do anjo da morte, e busca sua “redenção tardia” — na canção Late Redemption — num clima lúgubre e carregado de reflexão e desespero, percebi que esses mesmos elementos poderiam resultar num excelente livro aos moldes de Stephen King.

Claro, teríamos que trocar o cenário para o Maine, e talvez no lugar da redenção, um cemitério que traz os mortos de volta à vida, numa espécie de recomeço com propósitos monstruosos. Mas todo o resto — o fanatismo religioso, as tentações de anjos e demônios, as profecias, tragédias e mortes — tudo poderia estar ali.

Já na trilha, quando o livro fosse preparado para o cinema, teríamos Ramones, e ao ouvir a canção tema — que seria tão indivisível quanto Pet Sematary é como livro, filme e música —, seria possível inalar o cheiro da terra remexida. Além disso, nas noites frias, quando um som irregular no vento nos tirasse do sono, não saberíamos se o ser que habita aquele canto escuro do quarto é um anjo, um demônio ou o fantasma desfigurado de Victor Pascow.



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