• Diário Macabro

2020: uma odisseia pela saúde mental

Março de 2020.


Vários governadores de todo o Brasil começam a decretar a quarentena, na tentativa de conter o avanço do novo coronavírus. O desespero em abastecer a geladeira e a despensa com produtos necessários à sobrevivência pelos próximos quarenta dias, e a sensação de confinamento, trancados em casa e sem perspectiva para o futuro, desencadeia o caos.

Faltam nos supermercados papel higiênico, produtos de limpeza e álcool em gel.

Munido do que era possível adquirir dentro de minhas possibilidades, fiz o que pude para não precisar sair de casa durante aquele vasto período de tempo, mas existem pessoas que dependeriam de mim e, por isso, precisei me aventurar no mundo contaminado lá fora. O vírus estava se espalhando a cada hora, por todos os cantos. O número de infectados e mortos crescia exponencialmente.

Olhar para os lados e ver a falta de importância que a maioria da população dava para a gravidade da situação me fez perder as esperanças. Não explanei minha frustração para ninguém, pois cabia a mim manter em mente os pensamentos positivos, por mais difícil que tenha se tornado preservar a sanidade.

“Aqueles quarenta dias poderiam ser muito bem aproveitados”, pensei. Com desenvolvimento na minha escrita, estudos, trabalho, leituras. Teria agora o tempo que tanto almejava. Olharia para dentro do meu lar, colocaria as coisas em ordem, refletiria sobre projetos futuros que colocaria em prática assim que a humanidade superasse mais uma doença global.

Poderia ter sido assim, se a ânsia por notícias não fosse a minha prioridade. Passei boa parte dos primeiros dias preso na busca por informações, sendo bombardeado por fake news, vendo a população mundial ser reduzida em uma velocidade impressionante. Mais de mil mortes diárias em vários países da Europa, mais de mil mortes no continente norte-americano, mais de mil mortes no Brasil.

Houve semanas em que passei o dia inteiro lendo notícias sobre o avanço da doença, até que finalmente consegui perceber que aquilo estava me sugando e me tirando o sono. Precisava sentar e planejar o meu dia, me distrair. Eu já estava fazendo a minha parte: ficar em casa, mantendo a mim e minha família seguros.

Não adiantou. Na escrita, as ideias não fluíam, tendendo sempre à ficcionalização da pandemia. Nas leituras, qualquer menção a doenças me levava novamente à busca por notícias sobre Covid-19. Nos estudos, os exercícios eram deixados de lado. Será que existiria o amanhã para contemplar?

A quarentena se foi e veio a segunda quarentena. Depois veio a terceira, a quarta e em uma extensão que não acabava. Quando sete meses haviam se passado, precisei retornar ao trabalho presencial, caso quisesse continuar tendo condições de me sustentar. O medo persistia, mas a estranheza e a descrença em uma salvação haviam ido embora. Apesar de muitos estarem ainda não se importando com o isolamento ou distanciamento nem com o uso de EPI’s, um fio de esperança passou diante de meus olhos.

Pude retomar projetos que não saíam do zero e concluir leituras que não conseguia desenvolver. Aprendi, e ainda aprenderei, muito com tudo o que passei e ainda passarei. Reagi da maneira errada com meus desejos, ambições e emoções. Exigi de mim um desempenho que não era capaz de apresentar, caso não enxergasse a situação com mais exatidão. Hoje posso dizer que minha saúde mental se encontra em melhores condições do que no início da pandemia. Aprendi que não posso desistir de tudo e que sempre haverá esperanças. Não é a primeira vez que a humanidade passa por mudanças tão drásticas. Ainda estamos aqui e se o hoje ainda existe, devemos vivê-lo. Deixemos o amanhã para o amanhã.

Que neste Natal atípico as famílias que mantêm as tradições possam respeitar as normas de segurança para evitar a proliferação do vírus. Que esse afastamento sirva como uma trégua para que possamos estar juntos no ano que vem. Que 2021 seja um ano de aprendizado. Que esse filme, quase catastrófico, que foi 2020 nos sirva de lição para valorizarmos a nossa vida e a do próximo.

Escrever, ler, estudar, planejar, se cuidar são ações que podem ser feitas do conforto da sua casa. Se você é uma das pessoas capazes de se manter em atividade em home office, ajude-nos a conter a disseminação da Covid-19 e a recuperar, aos poucos, o que for possível da “normalidade” em que vivíamos.



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